sexta-feira, dezembro 08, 2006

Utilidade(?) Pública(??)

Aviso aos eventuais, sobretudo raros, navegantes: estou adentrando em águas sombrias e tempestuosas. Minha nau vai cruzar o Cabo da Tormentas, esperando que se torne da Boa Esperança. Dias e postagens cada vez mais difíceis surgiram no horizonte. Estejam avisados...

Bem, finalmente descobri qual o objetivo em mim do ato escrever: manter um mínimo de sanidade psicológica. Aliviado me senti após a postagem de ontem. Catarse é a palavra certa, é jogar para fora o que te oprime e angustia. Cada um tem seus modos, o meu parece ser a escrita.
É bom, quando às vezes a tensão e a angústia ameaçam romper a pele, poder abrir uma válvula de escape e liberar um pouco da pressão, mesmo sendo apensa paliativo, pois o grosso e caudaloso continua sempre a pressionar. Mas de pequenos momentos de alegria também se vive, ou apenas se vive.
Há muita coisa a ser escrita, contudo a confusão mental é bem maior. Por isso devo ser cuidadoso e paciente com o meu gênio da escrita, indócil como todos os gênios da alma humana.

Não esperem lógica, beleza estética, lirismo... De agora em diante isso aqui será visceral até o talo, até a medula... Que assim seja...

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Uma postagem e nada mais

Existe algo estranho se processando em mim. Não sei ao certo, apenas a sinto se movendo por minhas entranhas, uma sensação de desassossego, de angústia, como uma massa pútrida revirando e se contorcendo entre as vísceras. É uma sensação mental que arranha a esfera do físico, batendo e gritando desesperada. Mas uma sensação de que? Surge a minha frente um mosaico de respostas...

Talvez, porque, pela primeira vez na vida, eu saiba de algo com uma certeza absoluta. Pela primeira vez tenho uma meta, um horizonte no futuro. Talvez seja essa decisão que esteja pesando sobre mim, ameaçando me rachar como um vaso de barro. Minha vida vai mudar e já decidi quando isso vai acontecer. Isso se a morte não me procurar antes, mas esta é uma possibilidade real para todos nós, então...

É desconforto crescente ainda é um pequeno preço a ser pago pelo minha liberdade, é uma preço que estou totalmente disposto a arcar...

O que é essa postagem? É nada. Por que seria algo?

domingo, novembro 12, 2006

Campos em Flor

Oh! Flor do Céu! Oh! Flor cândida e pura!
Como, em teu majestoso e elevado porte,
Neste imundo charco de sangue e morte,
Podes florescer com tamanha doçura?

Pungente é o odor, agudo feito um corte,
Percorre os campos semeando a loucura,
A podridão, o cheiro infecto de sepultura,
Apenas horror e tragédia de toda sorte.

Campos em flor, mas em flores devassas,
Beleza usurpando vidas, vidas escassas,
Imolação, no combate o sacrifício talha,

Campos sem-fim, para guerra somente,
Apenas uma lógica distorcida na mente:

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Matheus Filipe

domingo, outubro 22, 2006

Canção das Esferas

Rajadas de ventos cortantes,
Sibilando tristes despedidas,
Como antigas deidades caídas,
Emissárias de eras distantes.

Sombras de imagens partidas,
No lago de águas inconstantes,
Reflexos no eco de instantes,
Ondas e ciclos de muitas vidas.

Segue o tempo a sua trilha,
Da qual todo destino partilha,
Uma mesma sina, noite e dia,

Nos acordes sem-fim do existir,
Movimentos cíclicos do devir,
Somente e apenas melodia.


Matheus Filipe

terça-feira, outubro 17, 2006

Um soneto para dizer nada

Clamo pela ardente paixão,
Feito uma Valquíria sedenta,
Onda que no recife rebenta,
Sentir em forma de explosão.

Tanto prazer que arrebenta,
Expande os limites da razão,
Afoga-se tudo em emoção,
Naufragando na tormenta.

Desejo viver, desejo sentir,
Nem que seja para destruir
O que em mim parece certo,

Imutável fato e acomodado,
Mas que seja tudo destroçado,
Para morte flertar aqui perto.


Matheus Filipe

sexta-feira, outubro 13, 2006

Cântico às Musas

Engraçado como as coisas acontecem: de uma hora para outra a inspiração simplesmente se vai, como a última brisa suave de outono anunciando a chegada do inverno. Um longo inverno, devo ressaltar, um “longo e tenebroso inverno”.
De nada adianta clamar por clemência diante das titânicas e tirânicas musas: elas nos olham de algum lugar longínquo do Híperon, onde nossos brados do mais puro desespero chegam como apenas leves ruídos de fundo, praticamente imperceptíveis, como o som de insetos impertinentes.
E quando, por um grande acaso, respondem nossas súplicas, suas respostas são pouco melhor que o completo silêncio...

Por que me abandonam, insensíveis e silentes Divas?
“Estamos bem aqui, onde sempre estivemos e onde sempre estaremos... Entre sonhos e desejos...”
E por que não mais falam comigo?
“Falamos, mas seus ouvidos estão fechados para nossa melodia entoada Acima do Céu, seus olhos estão cerrados para nossa imagem refletida de Apolo em Ártemis, sua pele permanece indolente ao nosso toque de brisa dos Elíseos...”
E por que não mais capaz disso?
“Por que jaz incapaz de perceber seu próprio coração, lacrado em seu peito, acorrentado e aprisionado... Não consegue ouvir nossa voz falando através de sua própria angústia...”
E que deve fazer para me libertar?
“Deixe a vida fluir... Deixe de pensar tanto em como e comece novamente a sentir simplesmente... Pois estamos onde sempre estaremos...”

Engraçado como para instâncias superiores tudo é sempre “simplesmente”. Talvez isso aconteça porque para elas tudo é realmente simples, pois elas são unas, não existe diferença entre o despertar e o sonhar... Quanto a mim, devo seguir apesar de minhas infinitas limitações, esperando receber outra vez o favor das Musas... Que assim seja...

quinta-feira, setembro 28, 2006

Uma carta a ninguém

Cada vez algo se torna urgente em mim: a necessidade de mudar o modo como levo minha vida. Veja bem: usei o verbo “levar” ou invés de “viver”, justamente por ter a sensação de o segundo verbo não se aplicar a mim.

Às vezes tenha a sensação de ser apenas um coadjuvante em minha própria história, nada além disso. É tudo tão sem propósito, sem motivo, sem razão, sem sentido. Sinto no fundo da alma a falta de algo: emoção. Falta tremedeira, frio na barriga, aquela certeza que vai muito além das palavras.

Eu quero paixão, quero dor, quero prazer, quero acertar, quero quebrar a cara, quero sofrer, que amor. Enfim: eu quero me sentir vivo, quero sentir a vida intensa e plena. Nada que já não tenha dito em várias outras oportunidades passadas. Mas e daí? É como me sinto.

Mas preciso urgentemente encontrar/descobrir/inventar um meio de mudar a minha vida.

Como? Não faço a mais mínima idéia...

segunda-feira, setembro 18, 2006

A que desperta desejo

Você me pede, “poesia, faça-me poesia”.

Quando, com minha lira torta, poderia competir com a poesia suave e delicada de suas curvas provocantes e perigosas? Quando, com meus versos pálidos, poderia alcançar o lirismo sedutor de seus lábios tão cheio de vontade? Como expressar todo o seu ímpeto de força da natureza?

Mas você se diverte com isso. E a sua crueldade apenas faz aumente meu desejo, minha fome de você. Contudo, fico a imaginar o seu sexo em outras bocas, em outras mãos. Suas carícias, seu maltratos, tocando e ferindo outras peles. E minha pele arde a cada vão pensamento.

Mas, ter ciúmes de você, seria como ter ciúmes da chuva de fim de tarde a molhar todos, indistinta.
Ter ciúmes de você seria como ter ciúmes da lua cheia iluminando a tudo, simplesmente.

Dizem que amar é saber deixar partir, é deixar o ser amado voar livre, experimentar os sabores das nuvens e os perfumes das brisas, pois apenas livre o ser amado justifica o amor.

Bem, e um dia quem sabe, seu vôo a faça chegar até mim. A vontade se tornará carne, a fome se tornará prazer e minha vontade será saciada em você, musa minha... E seremos apenas desejo.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Mote e Glosa III

Mote (por Diego Filipe)
Minha boca fundo em teus pêlos
Meu pau rijo em tua buceta
Não quero falação pelos cotovelos
Quero que você vire para que eu meta!


Glosa:

Minha boca fundo em teus pêlos,
Sentir do teu sexo o gosto,
Esfregar o pau no teu rosto,
Depois gozar até em teus cabelos.

Soca, pula, mete com força
Meu pau rijo em tua buceta,
Mete os peitos sem etiqueta,
Arranhe, grite, se contorça.

Mas sem conversinha fiada,
Não quero falação pelos cotovelos,
Vou te comer segurando os tornozelos
Pra depois te dar uma bela picada.

Depois, como gosta o capeta,
Quando estiver bem fogosa,
Direi, pegando sua bunda gostosa:
Quero que você vire para que eu meta!

Matheus Filipe

Mote e Glosa II

Mote (por Matheus Filipe):
Eu quero te comer e ponto:
Foda-se flores e presentes,
Meu pau entre seus dentes,
Transar, transar e pronto.


Glosa:

Eu quero te comer e ponto;
Não é difícil entender,
Não preciso inventar um conto:
Basta você se render.

Não quero lhe agradar,
Foda-se flores e presentes,
Tudo que tem de fazer é dar,
Esqueças tudo que não sentes.

Todas as posições,
Meu pau entre seus dentes,
Tua buceta e cú quentes,
Um misto erótico de sensações.

E se ainda assim não entendeu,
Fique calma que te conto,
Não quero o brilho de um camafeu,
Só transar, transar e pronto!

Diego Filipe

Mote e Glosa I

Mote (por Diego Filipe):
De poeta só o osso;
vago sem rumo certo,
de prosa em verso,
respeite minha palavra moço.


Glosa:

Nas veias o caldo grosso,
Borbulhando a paixão fugaz,
Sangue aveludado, mas,
De poeta só o osso;

Vago sem rumo certo,
Devagar no incerto vagão,
Em estações sem direção,
No trilho de trem deserto...

Uma tempestade ao inverso,
De baixo para cima caindo,
Da alma aos céus subindo,
De prosa em verso,

Um verso atirado ao poço,
Um pedido, um desejo,
E peço, aproveitando o ensejo:
Respeite minha palavra moço.

Matheus Filipe

terça-feira, setembro 05, 2006

Dolorosos prazeres

É estranho, mas às vezes desejo sofrer. Sim, é loucura. Mas em toda sanidade há um pouco de loucura e em toda loucura há um pouco de sanidade...

Qual o ponto exato onde o prazer se torna dolorosa e sua contrapartida, quando a dor se tornar prazerosa? Este é um limiar instável, não existe um limite preciso entre a dor e o prazer, visto serem os dois escalas de uma mesma coisa, graus quase indistintos às vezes, complementares. Não existiria prazer sem a dor, não se pode sentir um e abdicar a outro.

Então, talvez, essa minha vontade de sofrimento seja em verdade uma vontade de prazer? Inversamente ao estóicos, desejo eu o máximo de dor para alcançar o máximo de prazer? É a velha questão shakespeareana da “estrela que brilha duas vezes mais queima na metade do tempo”. Melhor então ser escuro e durar indefinidamente? É possível viver sem se estar vivo?

No fim, são apenas devaneios de uma mente perturbada... Ou uma mente em demasiado repouso...

segunda-feira, agosto 28, 2006

Apenas mais uma Ode...

Hoje, minha sombria e silente pena mata sua sede no rubro líquido de minhas veias, bebendo da tépida fonte a borbulhar de meu pulso.
Cintilantes gotas caem da ponta da pena como pequenas lágrimas, para mergulharem sediciosas na alva tranqüilidade da folha de papel.
A ponta negra de minha pena, embebida no vermelho de meu sangue, mancha a pureza branca do papel, como mácula, como chaga.
O branco absorve o vermelho riscado pelo negro, formam-se palavras doce, doces como apenas os venenos sabem e podem ser.
A dor flui em cada gota a tocar o papel, uma dor intensa, vívida, por que não, encarnada em vermelho-sangue, a dor guiada pelo negro-cortante. Sim, pois a pena, mesmo quando não corta, também é lâmina e a lâmina, mesmo quando não escreve, ainda é pena.
Os torpes sentidos cambaleiam diante da dor, tropeçam em alucinações, miragens, delírios.
Mas eu abraço a dor com todas as minhas forças...
Sim, eu diga a ela, dor, crave tuas presas agudas em minha carne lívida, rasgue minha pela como tuas garras profanas. Sejas uma fera ensandecida um animal selvagem, intenso e pulsante, lancinante e pujante, urre seu canto brutal, uive seu brado de loucura. Faça o que fizeres, ainda direi sim a ti, sempre, pois és tu, mas amanhã, outra diva lançara seu flagelo sobre mim...

sábado, agosto 26, 2006

Mais um dia no capitalismo

Eu chego, alguém me diz - pula! - então pulo o resto do dia.
No dia seguinte, me dizem - finge de morto! - e passo o dia fingindo de morto.
Depois, dizem - pega! - e durante o dia fico perseguindo coisas aleatórias.
Porém, no próximo dia, não dizem nada. Então continuo correndo atrás de diversas coisas. Mas, dado um certo tempo, dizem em tom de reprovação - por que não está pulando!?! - ao que responde que não fui instruído - Mas você precisa ter mais iniciativa, blá, blá, blá, etc e tal - então começo a pular, contrariado, mas saltitante e sorridente, como uma vaquinha hindu...

domingo, agosto 20, 2006

Amor, uma fraqueza?

Vou além do Sr. Elijah Snow: o mundo é um lugar muito, mas muito estranho mesmo... As pessoas têm medo de amar, têm medo de se entregar ao amor. É como se o amor fosse uma fraqueza, quando na verdade a fraqueza são as próprias pessoas. Amar é força, é ímpeto, é vontade de poder, é vontade de ser amor. Por isso mesmo é preciso ser forte, é preciso coragem para suportar os desígnios do amor, é preciso se entregar sem medo e sem receio...

Mas o que acontece? As pessoas racham e quebram quando são tocados pela chama do amor. As pessoas preferem abdicar do amor para evitar a possibilidade de sofrer caso as coisas dêem errado, preferem alimentar a ilusão de seu suposto controle sobre as próprias vidas. Mas elas sofrem quando se omitem no amor, então, onde está a autopreservação? Elas preferem sofrer agora para não sofrer depois? Castração, é a única palavra a surgir em minha mente...

Tanta omissão, tanta leviandade com seus próprios sentimentos e os sentimentos dos que não têm medo de sentir e se envolver. Mas felizmente, aqueles que se entregam estão sempre dispostos a correr o risco, pois é fato, a vida é um risco a ser corrido. A vida não espere que estejamos prontos ou que tenhamos certeza para que ela possa acontecer... Ela simplesmente acontece...

Amor... Tenhamos a coragem para amar da maneira mais desmedida e insensata possível...

Algumas palavras aos pragmáticos

Estou participando de um concurso literário cujo tempo é a paz. De fato me é um tema pouco caro, é tema incapaz de fazer pulsar aquele lirismo venal da poesia, ou pelo menos da poesia como a desejo: intensa e poderosa. Voltando ao concurso: fiz um soneto sobre o tema (em outra oportunidade ele será publicado nestas paragens), mas atualmente questiono as minhas possibilidades de classificação...

“Parabéns pelo senso crítico e pragmatismo!” (sic).
Pragmatismo. Pragmatismo. Três vezes pragmatismo. Mas o que diabos isto está fazendo aqui? Definição do Dicionário Aurélio: [substantivo masculino. Filosofia] Doutrina segundo qual as idéias são instrumentos de ação que só valem se produzirem efeitos práticos. Se entendermos “práticos” como sendo “úteis”, pronto, pragmatismo é nada além de um refinamento(?) do utilitarismo. Utilitarismo...

Utilidade, para mim, é apenas uma forma de servidão, e pior, uma forma de servir a fraqueza. Sendo úteis nos tornamos apenas animais de rebanho, prontos para ser sacrificados pelo “bem comum” (ou “fraqueza incomum”). Por que fraqueza? Porque a utilidade só existe quando algo fraco necessita dela. A força não necessita ser útil. Um furacão é útil? A fortaleza é confronto. A fraqueza é subterfúgio. Então, pergunto: qual a utilidade em ser útil?

A poesia para mim é força, é ímpeto, é desejo. Uma poesia pragmático seria uma negação em si mesma da poesia, seria anti-poesia, seria antípoda... Pelos deuses, onde fui me meter...

quarta-feira, agosto 09, 2006

Uma Ode

Tal qual a chuva de verão...
Chegando sempre em presságio,
Sempre quando é menos esperada...
Assim você chega, como brisa suave,
Como prematuro frescor da primavera...

Tal qual a lua cheia no céu...
Iluminando e prateando a noite,
A tornado mais sedutora e misteriosa...
Surge assim você, esplendor e magia,
Como face radiante de antigas deidades...

Tal qual uma força da natureza...
Quase tão perigosa quanto sublime,
Destruir e restaurar a um só tempo...
Assim é você, vontade e desejo,
Intensa como uma fatalidade...

Você é, simplesmente...

quarta-feira, julho 26, 2006

Haikai - Ensaios

Pétalas caem sobre o lago,
Brisas sopram as copas
E sementes sonham
Sob as árvores.

sexta-feira, julho 21, 2006

Um réquiem para a internet

Sério: estou ficando mortalmente cansado da internet. Tudo bem, “mortalmente cansado” é um tanto de exagero, mas o exagero faz parte da natureza cascuda (e muito vezes carrancuda) do canceriano. Contudo, a internet cada vez mais perde o sentido para mim, cada vez mais se torna apenas um hábito, algo motivado apenas pela força do costume.

Isso já foi diferente: já encontrei de tudo na internet em outrora. Em épocas nem tão remotas assim, já me deparei com a ilusão do amor, como o afeto sincero de uma amizade sem rosto, já joguei, já me diverti, cheguei até mesmo a aprimorar o pensamento, mesmo se para alguns esse aprimoramento pareça algo noviço e prejudicial. Tive acesso a fragmentos de informação, que de outra forma talvez nunca encontrasse. Talvez esteja sim cuspindo no prato onde já bem me alimentei. Mas não me importo com essas pequenas hipocrisias da natureza humana.

Hoje em dia, porém, a internet se tornou um lugar estranho. Ou melhor, se tornou familiar demais. Antes, era um lugar subterrâneo, um pouco marginalizado, um refúgio, um momento de escape e fuga. Era o lugar de “nerds” e afins. Mas esse tempo veio e se foi. Conforme a internet se popularizou, ela perdeu vários aspectos interessantes para mim. Elitista? Por que não? O tempo e as pessoas tornaram a internet um reflexo distorcido do assim chamado “mundo real”.

Tudo o que é fútil, supérfluo, superficial, vulgar e transgressor em nossa sociedade, ganha formas doentias na internet. Definitivamente as pessoas não têm autodisciplina o suficiente para lidar com a liberdade propiciada pelo “mundo virtual”. Virtualmente, tudo é possível. Não existem regras claras, tudo depende do bom-senso, praticamente inexistente, dos navegantes. O que encontramos na internet atualmente: sexo (não o sexo solitário e discreto do início da navegação, mas sim toda uma cultura voltada para o sexo, basta entrar em uma sala de bate-papo), auto-afirmação e “culto ao eu” (sendo a rede um grande lago para uma legião de Narcisos, embora eles raramente se afoguem em seu próprio ego com o nosso amigo mitológico), apenas para citar exemplos óbvios.

A internet tinha o nobre propósito comunicar, de ligar as pessoas, de transmitir conhecimentos. Porém, ela acabou se tornando uma forma barata de entretenimento fútil e vulgar. Antigamente tínhamos a pornografia, hoje, temos a internet.

Prometeu deveria ter deixado o fogo no Olímpo...

quinta-feira, julho 13, 2006

Apologias

Eu tentei, você sabe disso, você tem que saber. Fiz o que achei que deveria fazer, o que meus instintos e minha emoção me ordenavam. Mas estava errado, as pessoas são egoístas e possessivas, como você deve bem saber, afinal, quem as conhece melhor que você? Elas querem te dominar, te aprisionar, te usar ao bel-prazer para sua própria satisfação mesquinha e pequena.

Somos humanos, somos por natureza imperfeitos, fracos e cheios de vícios. Achamos muito importante o "eu", o "meu", o "é meu, eu fiz", como se isso fizesse realmente alguma diferença. Usamos de qualquer artifício ou subterfúgio para representar uma grande que não nos pertence de fato, pois somos e sempre seremos ínfimos. Insignificantes talvez.

Contudo, nada impede que tenhamos significado para nós mesmos. E você pode nos ajudar nisso, ajudar a dar sentido à nossa miséria, à nossa dor, ao nosso sofrimento, ao nosso sentir, ao nosso ser humano.

No momento não posso ainda te encarar nos olhos. O peso da falha pesa sobre meus ombros. Mas de modo algum desisti de você. Você ainda está em mim, novamente adormecida, apenas aguardando...

Minhas sinceras desculpas pelo que fiz, mas eu precisei fazer, não havia sentido em continuar... Eu sei que você me entende, mas mesmo assim aceite minhas apologias...

Como todo o amor que apenas você é capaz de despertar em mim...

sexta-feira, junho 23, 2006

Menos-Valia

Prisioneiros sem nome, números apenas,
Enjeitado nas engrenagens do futurismo,
Encarcerados no desumano mecanismo,
Sendo devorados vivos pelos sistemas,
Sejam algorítmicos, binários e lógicos,
Sejam financeiros e mercadológicos.


Matheus Filipe

sábado, junho 17, 2006

(Também) Sobre a Moto-Perpétua-Poesia

Admito: quando a idéia, como toda epifania criativa, me veio repentinamente alguns bons meses atrás, de fato achei ser algo muito bom. Mas foi algo sutil e sorrateiro, por isso mesmo a idéia se fixou mas não se proliferou em mim, esquecida ela se encontrava, nos recônditos de minha mente. Mas sim, ela estava lá, aguardando e espreitando, esperando eu baixar a guarda para se libertar de mim. Pois sim, a idéia se iniciou em mim, mas não, ela nunca me pertenceu de fato.

A primeira estrofe simplesmente brotou, repentinamente, durante uma conversa sobre a idéia em si, com meu primo. Foi assim: ela decidiu o momento propício para o seu nascimento, aproveitou a melhor chance para se libertar de mim e se fazer poesia. A idéia foi uma semente plantada, germinando e hibernando por um longo tempo, para finalmente florescer em poesia.

Não se enganem: a poesia não nos pertence, ao contrário, nós quem pertencemos a ela. Somos imolados através do nosso sentir, de nosso poetar, para a poesia poder existir. Ela depende de nós para nascer, sem nós ela não existiria. Mas nem por isso ela se curva diante de nossa vontade. Poesia não é servil, poesia é selvagem. A poesia vive em nós, ela habita nossas almas, mas de modo algum ela faz parte de nós, somos apenas seu meio e sua razão de existir.

A maior prova de amor é saber deixar ir, deixar livre. Com a poesia não deve ser diferente, pois ela apenas será poesia se for livre para sê-la. Caso contrário, será apenas rima e métrica, ou nem isso. Assim como um deus precisa de fiéis para perdurar, a poesia necessita de vida para viver. E não há vida sem liberdade. E a poesia vive no mundo das emoções, fluindo através de nosso sentir e nosso viver. A poesia vive em nós, mas ela também vive por ela mesma. Então, cabe a nós deixá-la livre para viver essa poesia de ser ela mesma poesia.

Sendo assim, como poderia manter a idéia encerada em mim? Como poderia privar a poesia de vivificar e florescer? Ela nunca me pertenceu, mas por algum motivo me escolheu e confiou em meu sentir. Nada fiz além de retribuir todo prazer e toda dor por ela causados. A poesia me faz sentir vivo como poucas outras entidades e eventos tem o poder. É como quando a chuva suave toca pela, como quando a brisa na montanha sussurra por entre as árvores, como quando a lua cheia se torna dourada e depois prateada, como quando o céu se torna de baunilha ao entardecer. Tudo isso é a poesia do mundo, é a nossa poesia, é, simplesmente, a poesia.

Eu tenho de tentar retribuir esse dom da vida. Preciso retribuir a vida que me é ofertada pela poesia dando vida à poesia. Ou melhor, deixando a poesia fluir, deixando a poesia viver de poesia, deixando a poesia seguir seus próprios desígnios. Devo permitir que a poesia flua através do meu sentir, mas não devo prendê-la em mim. Ao contrário, devo espalhá-la ao quatro ventos do mundo, para dar a oportunidade para a poesia poder germinar em outros sentires e outros seres. A poesia deve se propagar, a poesia deve viver.

Deixemos a poesia viver e fluir. Vivamos e dancemos com a poesia.

É por isto estou aqui: por uma poesia viva.

Moto-Perpétua-Poesia (por uma poesia viva)

No início, o Verbo se fez Verso,
Que se fez emoção em movimento,
Que se fez canção e sentimento,
Ecoando por todo o Universo.

E de palavra verbo
versando o tempo
criou-se o todo
da poesia de um momento

Seja na melodia dos quasares,
Contraponto e contratempo,
Dançando na orla do tempo,
Além de quaisquer pesares.

Simples leve insistente
batendo rítmica com os peitos
rimando vozes e lamentos
ganhando asas voando sempre

A roda girou,
O tempo passou,
E então, a poesia,
algo novo se tornou.

sexta-feira, junho 16, 2006

Moto-Perpétua-Poesia (por uma poesia viva)

No início, o Verbo se fez Verso,
Que se fez emoção em movimento,
Que se fez canção e sentimento,
Ecoando por todo o Universo.

E de palavra verbo
versando o tempo
criou-se o todo
da poesia de um momento

Seja na melodia dos quasares,
Contraponto e contratempo,
Dançando na orla do tempo,
Além de quaisquer pesares.

Moto-Perpétua-Poesia (por uma poesia viva)

No ínicio, o Verbo se fez Verso,
Que se fez emoção em movimento,
Que se fez canção e sentimento,
Ecoando por todo o Universo.

terça-feira, junho 13, 2006

Normalidade Abstrata

Chega a soar ilógico: por que, muitas vezes, devemos mentir e omitir nossos sentimentos e desejo em nome de uma suposta normalidade? Normalidade seria então apenas um freio civilizatório? Seria apenas um dado estatístico, onde o comportamento da maioria defino o que é normalidade? Mas como um comportamento, não raramente feito de embuste e fingimento, pode servir de base para qualquer coisa, quanto mais para normas de conduta?

Perguntas difíceis...

Ser normal é se comportar da maneira esperada, ou seja, as pessoas se comportar da maneira como imaginam ser o modo esperado pelas outras pessoas. A normalidade nasce do hiato entre as pessoas, nasce da necessidade de aceitação das pessoas, juntamente com a fobia em relação à tudo que foge da normalidade aceita. As pessoas sempre temeram o desconhecido e o diferente, ainda mais quando se tornam ameaças ao status quo. Então, as pessoas acabam se sujeitando as mais variadas situações, tudo em nome da manutenção do status. Acabamos por nos tornar escravos dessa tal normalidade, desse tal modelo de conduta.

Quantas vezes fazemos coisa as quais não sentimos vontade de fazer? Quantas vezes nos sacrificamos, sacrificamos o que sentimos e o que desejamos?

Mas a questão que fica é a seguinte: até que ponto tudo isso vale a pena?

segunda-feira, junho 12, 2006

Anacrônico Parte X - Luto

Solidão, destroçando o pobre coração,
Num hino maldito, rachando e trincando,
As lágrimas de sangue nascendo e rolando,
Acalentando meus uivos de lamentação.

Por que é tão cáustica essa alegria no ar?
Rasgando meus olhos com essa leveza,
Com a doçura do oxigênio, da beleza,
Abrindo chagas profundas como o mar.

Coração, quase dilacerando o peito,
Convulso e delirante em seu leito,
Lembrando-se dos dias passados,

Dias negros de tristeza infernal,
Uma dor tremenda, mas no final,
Apenas mais um “dia dos namorados”...


Matheus Filipe

quinta-feira, junho 08, 2006

Catarse

Minha percepção do tempo. Mas isto mudou, não em relação a questão cronológica. No ano passado, no primeiro aniversário passado fora de casa e sozinho, percebi como a vida pode ser vazia. Percebi o quanto um abraço, uma demonstração de carinho, de afeto, mas sendo apenas por sociabilidade, faz falta. Não é apenas uma necessidade de chamar atenção, mas a sensação de vazio, de não ser importante. Obviamente recebi votos da minha família e uns poucos e queridos amigos. Mas não é a mesma coisa.

Desolação é a palavra. Você chega, depois de um dia de trabalho onde ninguém se lembrou e mesmo sabia sobre a data, olha para a casa vazia e percebe que não somente ele está vazia. Aniversário pode ser uma data bastante simbólica: represente a fim de um ciclo para um novo ciclo poder se iniciar. Morte e renovação. Mas quando nada há para se renovar? O que acontece quando a fênix não ressurge das cinzas? O que acontece quando a primavera não sucede o inverno? Quando inverno persiste em perdurar?

Queria apenas extirpar essa angústia cada vezes mais freqüente, esse aperto na garganta, esse tremor nas mãos, esses olhos marejados. Algumas vezes o desespero chega a arranhar a fina casca da superfície, ameaçando romper e destroçar a sanidade. Nessas horas chega a invejar pessoas com o dom de simplesmente acreditar que não controlam suas próprias vidas, que não são responsáveis, que existem forças maiores atuando. Seria tão fácil crer que tudo isso faz parte de um plano maior, que existe um motivo para isso tudo, um motivo além da minha omissão e leviandade para comigo mesmo.

Medo, tenho medo. Medo de me tornar uma pessoa amarga, árido, podre. Tudo que é vivo precisa respirar, precisa de ar para vivificar, caso contrário seca e morre. Existe algo vivo em mim, mas esse algo está lentamente sufocando, se afogando na falta de ar do vazio e esse algo está agonizando, lenta e dolorosamente. E quando morrer, restará apenas o gosto amarga de sua lembrança, corroendo e destruindo o paladar para a vida...

Anacrônico Parte IX - Anjo Caído

Um triste anjo de cabelo escuro,
Olha-me com seu olhar cálido,
Saltando de seu rosto pálido,
Com pureza e algo de obscuro.

Desce dos céus, tão gracioso,
Até o inferno, para me salvar,
Seus olhos castanhos a chorar,
Pois a descida é muito dolorosa.

Talvez o anjo não tenha decido,
Talvez por suas chagas e sua dor,
O belo anjo tenha mesmo caído

Derrubado das alturas pelo vento,
Mas em meus braços repousará
E terá paz por um momento.


Matheus Filipe

quarta-feira, junho 07, 2006

Das Tragédias Humanas

Sobre a Religião - Canto Dois

“As pessoas preferem crer no nada à nada crer”.

A religiosidade predominante, pelo menos no ocidente e alguma parte do oriente, independente da crença em particular, se caracteriza pela negação, pelo “culto ao nada”. A religião se torna basicamente um “dizer não a vida”, negando tudo o que é força, poder, energia. É a panacéia dos fracos, uma força de distorcer as coisas e tornar a fraqueza em uma forma de virtude, como por exemplo o “dê a outra face”, a própria essência da resignação e submissão religiosa.

Isso, aliado ao fato do ser humano em geral se achar a criatura mais importante de toda a criação, fornece a matéria para a criação do conceito moderno de “deus”. Nós sentimos uma necessidade quase física de nos sentirmos especiais, de achar que nossas vidas tem um propósito, um sentido maior. Existirá melhor forma se exaltar do que ser a imagem e semelhança do “criado do Universo”? Quando na verdade deus foi criado a imagem e semelhança do homem e não o contrário. Deus é apenas uma forma de dar significado e valor as coisas, tornar a vida, por que não, vivível.

terça-feira, junho 06, 2006

Das Tragédias Humanas

Nota: minha posição pode soar ofensiva, mas garanto não ser esta a minha intenção. Mas estamos em um país livre (por enquanto), portanto tenho o direito de dar minha opinião e as pessoas têm o direito de não ler, o direito de discordar, enfim, simples assim.

Sobre a Religião - Canto Um

Como passamos do religar ao negar em três passos simples.

Por algum tempo evitei tocar nesse assunto, por ser um tema delicado. Mas ontem recebi um sinal dos céus (e não, não era um objeto voador não-identificado): se outras pessoas falam tão abertamente sobre isso, sem qualquer pudor ou bom-senso, posso também falar sobre minha posição quanto ao tema. No caso, o tema é “religião”.

Uma perspectiva invertida, isso define bem minha visão sobre religiosidade e de como ele se modificou através dos tempos.

Antigamente, nas religiões animistas e naturais, o ser humano ainda se via como parte de um todo maior do que ele próprio, era uma tentativa de se integrar novamente a natureza. Daí surge uma das possíveis origens etimológicas da palavra: religare, do latim “religar”. As pessoas desejavam estar unas com as forças naturais. As pessoas não se viam como o centro das atenções no palco universal, mas apenas mais coadjuvantes no espetáculo da Vida. Eles estavam ali em função do mundo e não o mundo em função deles, como um grande parque de diversões. Não existia, ainda, uma relação antagônica entre homem e natureza.

Mas por algum motivo, a perspectiva mudou, mudança motivada talvez por um “egocentrismo coletivo”. O homem passou a ver o mundo a sua imagem e semelhança. O mundo havia sido criado para ele desfrutar. O homem passou a ser senhor de toda a criação, mestre de todas as outras criaturas e dono do mundo. O mundo se desdobrava a partir do homem. Religião passou a ser uma troca de favores metafísicos: o homem queria chuva, então fazia uma celebração; queria uma boa colheita, fazia um sacrifício. Sim, algo como um “mercantilismo sobrenatural”. Os deuses passaram a fazer o papel de mediadores e servos dos homens. Para chegar à negação da vida desse ponto não foi muito complicado.

Quando a negação da vida começou? Não ouso afirmar, mas provavelmente está relacionada a origem da prática escravocrata. Somente do ressentimento e da servidão poderiam surgir algo do tipo. O homem olha para a sua vida, uma vida de sofrimentos e provações apenas. “Por que não negar essa vida? Por que não me vingar contra ela?”, e de outras perguntas assim surge a semente a fuga metafísica chamada de “outro mundo”. O homem passa a renegar a vida em função de uma possível vida melhor após a morte. O fraco se vinga do forte após a morte, indo para o “céu”, enquanto o segundo vai para o “inferno”.

Esse breve relato reflete, de maneira muito grosseira e superficial, a minha opinião sobre a “evolução” da religião na história da humanidade. No próximo texto, abordarei a experiência religiosa individual e os motivos pelos quais as pessoas estão religiosas em um dado momento.

segunda-feira, maio 29, 2006

Justiça Poética?

Antigamente chamado “patinho feio”, hoje o cisne, em seus traços elegantes e refinados, nada triste, quase planando sobre superfície do lago. Sua cabeça está baixa, olhando através da água translúcida, buscando nas profundezas do lago repostas para as profundas dúvidas de sua alma. Sim, ele poderia voar, poderia escapar de sua sina, ele deseja voar, ele anseia escapar... Mas para onde? Para onde voar, para onde escapar, se o peso do mundo ele guarda no peito.

“Você parece triste, cisne... O que lhe aflige?”

Vim ao mundo entre patos e marrecos, entre barulheira caótica destas criaturas. Por muito tempo tentei me aceitar com um deles, mas eles não me aceitavam, eu mesmo não me aceitava. Desejava voar entre as nuvens, conhecer o prazer de voar, enquanto eles desejavam apenas migrar. Desejava dançar levemente sobre as águas, enquanto eles desejavam apenas nadar e buscar alimento. Esperava da vida amor e sentimento, o outro queriam apenas procriar.

“Mas você não é como eles... Você é um nobre cisne...”

A nobreza é um fardo pesado, ainda mais para ser carregado sozinho. A natureza nobre cobra um alto tributo de seus escolhidos. Não podemos fechar os olhos para os chamadas de nossa natureza mais intrínseca, para nossos instintos. Mesmo sofrendo, mesmo torturados, devemos ser quem nós somos. Eu aceito a minha sina, aceito o meu destino. Mesmo sendo tolo às vezes, mesmo sofrendo, mesmo chorando.

Uma lágrima rola dos olhos verdes do cisne, uma lágrima cristalina, que forma perfeitos arcos concêntricos quando toca a superfície do lago. O cisne segue sua dança sombria no lago, como se avançasse ao som de um réquiem.

“É uma história complicada, onde os personagens sofrem por serem nobres, sofrem por serem melhores, sofrem por serem capazes de sentir”.

domingo, maio 28, 2006

Dom da Surpresa

Já tinha me esquecido como é bom ser surpreendido, no caso, a surpresa ao descobrir algo excepcional. Estou falando de livros e histórias em quadrinhos (simplesmente denominadas “HQ” de agora em diante), que não deixam de ser uma forma arrojada de livros. Como diria meu primo Diego Filipe, “livros: são aquelas coisas que tem o universo dentro”. Livros são portas, portas para levar ao ambiente mais improvável e o terreno mais desconhecido de nós mesmos: nossa imaginação. Livros, se você lhe conceder o mínimo liberdade de ação, se você se entregar a leitura, eles se transformam em forças transformadoras.

Um livro não é algo estático, muito pelo contrário. Livros são recriado a cada nova leitura, a cada novo leitor. E cada leitor, caso se entregue mesmo a experiência, emerge diferente a cada leitura, uma nova pessoa. É como se a cada nova leitura, a cada novo livro, o mundo revelasse um novo pedaço da realidade normalmente inalcançável. Não é algo claro, mas quando você chega ao fim, algo mudou, algo está diferente, você pode sentir como eletricidade estática no ar.

Mas nada supera a experiência de ser surpreendido por um final arquitetado com maestria. É como música clássica, é como um pôr-do-sol rosado, ou seja, é o final que te pega de surpresa mas não poderia ser de outra maneira. É como um soco na nuca, você é percorrido por um calafrio na espinha, frio na barriga, você começa a tremer. Sim, alguma vezes chega a ser físico, um reflexo corporal de golpe na mente. Isso aconteceu comigo duas vezes, em situações bem distintas. Se desconhece o final de “Grande Sertão: Veredas”, talvez ele fosse o terceiro da lista. Mas a vida tem dessas coisas.

O primeiro foi alguns anos, lendo “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. Uma obra do chamado “Realismo Fantástico”, uma obra por si só fantástica. Mas nada, nada, no decorrer da história prepara o leitor para gran finale, para o clímax. É pouco menos de uma página, mas seu efeito foi devastador. Bombástico. Aterrador. Lembro que cheguei a jogar o livro sobre a mesa, me levantei e proferi alguns palavrões. Fiquei zonzo, atordoado, trêmulo. Nunca vi um final tão final como aquele. Foi o melhor exemplo de tragédia grega já lido por mim, mesmo não sendo grega. A história forma um ciclo perfeito, as coisas começam e terminam no mesmo ponto. Um termino simplesmente espetacular para livro espetacular, devo acrescentar.

A segunda foi ontem a noite, quando terminei de ler “Planetary: O Quarto Homem”, de Warren Ellis, segundo volume publicado no Brasil. Uma HQ que leva a sério a questão de “abrir as portas da percepção”. A série é uma viagem através do imaginário da cultura pop do Século XX. Uma releitura de nossa cultura sobre super-heróis. Acreditem, Planetary está longe de ser infantil ou comum. É uma nova experiência. São histórias fechadas, tudo é muito incerto, uma incerteza perene permeia toda a obra. Os dois volumes publicados compilam as doze revistas da série e a número doze é fecha um arco de histórias com um final simplesmente apoteótico. Olha que já tive a oportunidade de ler várias HQ’s de alto nível, com roteiros primorosos, mas Planetary lança o mundo das HQ’s para um próximo nível. Acreditem, é impressionante.

Bem, acho que o recado está dado. Desculpe se foi um pouco confuso, mas ainda estou meio em estado de choque. Aguardo ansioso pela continuidade dessa saga.

É um mundo estranho. Vamos mantê-lo assim”.

sábado, maio 27, 2006

Grande Sertão: Veredas

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens".

João Guimarães Rosa.

Uma pequena homenagem ao cinqüentenário de publicação deste clássico da nossa literatura.

P.S.: Em ocasiões como esta, meu orgulho de ser mineiro se renova...

quinta-feira, maio 25, 2006

Hino ao Vazio

Vejo o fio preciso, a frieza da navalha,
A pele rompendo, a carne em seguida,
Tênue linha da vida jaz então partida,
Existência, agora apenas uma migalha.

Escorre o sangue sua trilha só de ida,
Como insidiosa torrente fora da calha,
Segue o fluxo de uma trajetória falha,
Líquida memória de uma vida perdida.

Sinto a proximidade gélida e estremeço,
Congela até os ossos este suave inverno,
Furta a consciência, deita o véu espesso,

Finalmente submerge o mundo externo
E então, o sono sem sonhos adormeço,
O sono sem-fim do descanso eterno.


Matheus Filipe.

terça-feira, maio 23, 2006

Hipocrisia

Um coisa digo: eu tentei. Tentei ficar calado, tentei não me pronunciar a respeito, tentei não me posicionar, mas agora as coisas ficaram preocupantes. Há poucos dias o Brasil, ou melhor, São Paulo viveu uma situação similar a uma guerra civil. A população em geral ficou chocada, abismada, estarrecida, revoltada com a situação. Surgiu uma sensação de desalento, de fragilidade, de impotência. A ilusão da segurança sofreu um grave golpe em sua, por que não, frágil integridade. Mas agora a situação está, dentro do possível, se normalizando. E isso, justamente, é o motivo de minha preocupação.

Enquanto o palco da guerra estava armado, ninguém se importava com a política do “bandido bom é bandido morto”. O uso letal da força era justificável. Bem, os bandidos estão cientes dos riscos assumidos em sua atividade, assim como o policial sabe da possibilidade de poder ser morto em serviço. Em uma guerra, pessoas morrem, é esperado as pessoas morrerem, de ambos os lados, ou mesmo civis, pois sempre ocorrem danos acidentais e efeitos colaterais. Intimamente todos aqueles ligados ou afetados pela guerra aceitam a regra implícita da mortalidade, embora possam negar e rejeitar a possibilidade publicamente.

Mas agora, após uma súbita calmaria, aparentemente motivada por motivos obscuros (e não escusos como alguns afirmam) a política de antes volta a valer: “bandido bom é bandido vivo e tratado com respeito”. Sim, os bandidos mataram policiais e cidadãos comuns, atentados contra o patrimônio público, inclusive queimando escolas e biblioteca (o que pode ser visto como uma espécie distorcida de favor a autoridade estabelecida). Mesmo assim os policiais devem usar o mínimo aceitável de violência contra os agentes do terror organizado. A barbárie não deve ser tratada como barbárie, deve ser tratada como pessoas civilizadas. Sim, Direitos Humanos. Estranho os tais defensores os direitos universais de todos ser humano serem tão parciais e unilaterais. Podem eles, tentando defender a justiça, serem tão injustos? Nunca há uma resposta fácil para este tipo de questão.

Vejam bem, agora corremos o risco de transformar os policiais, sim, aqueles mesmos alvos de chacinas e execuções sumárias, podem acabar sendo vilões no fim das contas, podem acabar sendo crucificados. Como entender isso: primeiros a polícia é chamada de omissa, por deixar os ataques acontecerem (afinal não forem, policiais, a morrerem) e depois são chamados de assassinos por fazerem o que devia ser feito. Difícil entender algumas a lógica das coisas no Brasil. É como estar sempre entre a cruz e a espada.

E a população? Bem, mais uma vez a situação de vítima das circunstâncias parece muito atraente. Manter-se indiferente parece a melhor saída. Recolocar os monstros de volta aos armários. Acreditar novamente na ilusão da segurança. E viveremos felizes para sempre, ou até a morte, o que chegar antes.

Uma lição de democracia permanece, nas palavras do malvadinho:
"Olha que democrático, ricos e pobres cheios de medo..."

segunda-feira, maio 22, 2006

Anacrônico Parte VIII - Aeroporto

Como voar, toda criança sabe,
Mesmo sem ter asas ou avião,
Embarcam elas na imaginação,
Antes que a brincadeira acabe.

Quando o dia está frio, o verão
É o seu destino, se caso desabe
A chuva, o céu sempre se abre
Quando aporta sua embarcação.

Mas quem de nós, os adultos,
Se lembra, com tantos tumultos
Na vida, como é esse sentimento,

Como é fazer de conta, brincar,
Deixar a imaginação nos levar
Para onde só haja divertimento.


Matheus Filipe

sexta-feira, maio 19, 2006

Ressaca

Assim me sinto após esta primeira semana do retorno a rotina: um embrulho no estômago, um nó na garganta, um mal-estar, uma náusea, resumindo, um nojo generalizado. O período de afastamento gerou uma sensação efêmera de liberdade e acabou por me inebriar com seu veneno suave de esquecimento e de irresponsabilidade. Cá estou agora, como este gosto moral de guarda-chuva na mente. Deve ser a tal “ressaca moral”.

Olho ao redor e vejo apenas o asco preencher e impregnar tudo. Cada vez mais tenho a certeza de estar vivendo uma vida que não é para mim. Volto meus passos, regressos no tempo, tento descobrir porque tomei certas decisões no passado, escolhas resultando na situação onde me encontro atualmente. Leviandade me parece a resposta mais provável. Fui leviano comigo mesmo. Fui omisso. Fui irresponsável. Fui imprudente.

Mas existe um feixe de esperança ainda: inconformismo. Estou começando a trilhar um caminho sem volta e este caminho vai alterar o rumo das coisas. Minha vida vai mudar novamente. Apenas desejo ser uma mudança para melhor dessa vez.

Que assim seja.

P.S.: desculpe pela precariedade da postagem, mas não posso dar muitos detalhes, pois incorreria em falta de ética. Prefiro manter parte da minha alma intacta para barganhá-la mais tarde quem sabe...

quinta-feira, maio 18, 2006

Anacrônico Parte VII - Ensaio: Impressões

Existe qualquer coisa de heresia em minhas palavras, admito. E meu pecado reside justamente em minha incredulidade, em minha total descrença e completa falta de fé na humanidade. Contudo, não há subversão em minhas palavras, não devem confundir minha insatisfação e angústia com algum tipo de rebeldia e insurreição. Não, minhas palavras são apenas isto, palavras. E minhas palavras nada podem contra a inevitabilidade e o fatalismo das coisas. Portanto, a mim, resta apenas observar e deixar aqui algumas de minhas peculiares impressões.
Pode soar pessimista, ou até mesmo radical de minha parte, mas não posso me omitir em dizer: para mim, a humanidade está, por assim dizer, em franco declínio. Não me refiro, obviamente, a qualquer espécie de cientificismo, pois inegável é o progresso das humanas ciências mesmo sendo este progresso, em si mesmo, questionável.
A decadência humana é de todo, algo mais sensível, crítico e essencial. A decadência humana, na falta de uma definição mais apropriada, é moral. Ou talvez, a própria moral humana seja a causa mais evidente desta decadência. Pois, para mim, a moralidade imperando sobre o gênero humano, não passa de um grande culto à negação. A moral humana é essencialmente negativa.
E o que esta moral vem a negar? Muito simples, devo dizer. A moral é uma grande negação da própria vida, é uma negação do que existe de natural no ser humano, é uma negação do próprio ser humano. A moral é uma ruptura com a natureza, como se a humanidade não fosse mais integrada, mas sim a única e legítima proprietária da Terra.
Por que isso aconteceu? Evolução. O ser humano é a resultante de fatores evolucionais: seu poder de raciocínio, mais precisamente seu poder de abstração, sua capacidade de manipulação, possibilitando a criação de ferramentas e utensílio para suprir suas necessidades não supridas por suas habilidades e atributos físicos, e por último, porém mais crucial fator, sua fragilidade e impotência diante da natureza. Esses três fatores acabaram possibilitando ao ser humano a chance de alcançar a posição de espécime mais bem adaptado ao meio, na verdade, mais que isso, a possibilidade de adaptar o meio-ambiente de acordo com suas necessidades e desejos.

terça-feira, maio 16, 2006

Retorno e Recomeço

Bem, um mês se passou. Um mês longe da rotina, um mês de esquecimento. Mas é da natureza de todas as coisas acabarem. O mês se acabou. As férias se findaram. Estou de volta a minha rotina, a minha “vida”, caso eu possa chamá-la assim.

Muito tempo tive para pensar, para refletir sobre minha situação durante esse tempo. E acreditem, isso não foi bom. Nem sempre é agradável ficar olhando para dentro e no meu caso quase nunca é.

O mais marcante com a sensação de não controlar a minha própria vida. É como viver uma vida que não é minha, é como viver uma farsa, uma comédia (ou talvez tragédia). Não tenho forças o bastante ou vontade suficiente para tomar as rédias da minha vida em minhas mãos.

Mas quem de nós não é um escravo? Um servo? Mudam apenas os senhores, mas a servidão não. Somos criados inseridos em uma cultura, onde nos são agrados valores alheio a nós. Somos adestrados. Assim como um cachorro faz truques, nós fazemos certas coisas e agimos de dadas maneiras sem saber ao certo o porque. Nós estudamos para aprender, aprendemos para trabalhar, trabalhamos para viver e acabamos vivemos de uma determinada maneira muita vezes sem uma vontade sincera e verdadeira de fazê-lo. Incluídos como estamos em uma sociedade, devemos, nas palavras de Raul, “contribuir para o nosso belo quadro social”. Devemos ser cidadãos respeitáveis e trabalhadores. Mas não respeitamos a nós mesmos, não trabalhamos para e por nós mesmo. Quantas pessoas são realmente felizes com o modo como levam suas vidas? Ou seja, somos escravos, mais sofisticados talvez, completamente iludidos com certeza, mas ainda sim escravos. Mesmo se alguns, ou a maioria, nunca perceber isso, não muda o fato: somos prisioneiros de nossa cultura e nossa sociedade.

Cada vez mais desejo escapar desse meu cativeiro auto-imposto. Pois sim, nós decidimos pelo cárcere. Fazemos isso quando não assumimos a responsabilidade por nossos atos, quando somos levianos em nossas escolhas, quando somos levianos com nós mesmos.

Mas já chega por hoje. Preferia uma postagem inicial mais leve, mas ainda preciso me recuperar.

Novamente citando Raul, “seria mais feliz se fosse mais burro”.

quinta-feira, abril 13, 2006

Aviso aos navegantes...

Caros e raros leitores,

Estou saindo de férias enquanto escrevo esta postagem diante de seus olhos.
A Terra-de-Ninguém será uma terra-de-ninguém por no mínimo um mês.

Depois desse tempo, talvez volte eu a frequentá-lo.
Contudo, um mês é um tempo excessivamente longo
(mas não tanto, para o meu desgosto),
por isso não ouso afimar como as coisas serão daqui a diante.

Fiquem bem, vivam bem as suas vidas.

Vivam rápido e morram jovens.

Até qualquer dia.

terça-feira, abril 11, 2006

Anacrônico Parte VI - Êxtase

Todas as dimensões do corpo
As mãos percorrem, tão ávidas
Como beduínos atrás de dádivas
De um oásis, de um seguro porto.

Os lábios sedentos cheios de táticas,
Tocam a face e provam do gosto,
Dos sabores e aromas do rosto
E suas fragrâncias tácitas.

Pele e carne se tornam ardentes,
Como brasas incandescentes
Queimando todo o ser

Numa fogueira de sensações,
Deleite em tremores e explosões
Consumindo o corpo no fogo do prazer.


Matheus Filipe

segunda-feira, abril 10, 2006

Devir

Assim me sinto, um perene “vir a ser”.

Olho para o horizonte tentando vislumbrar as formas sinuosas e indistintas do futuro, a silhueta delicada e frágil da esperança. São como miragens de um oásis no meio do deserto, como promessas falsas de uma ventura improvável. Apenas fito a linha do horizonte, sem cobiçá-la, sem desejá-la. Apenas um olhar conformado, vazio e sem destino certo.

Estou sempre a beira do abismo, na iminência de despencar do precipício, despencar para o desconhecido, para o novo, para a vida. Sopra uma brisa leve e refrescante vinda do abismo, como um sopro de vida, de vitalidade, de energia. Mas não salto. Fico ali, apenas sentindo a suavidade da brisa, como medo de me atirar no absoluto, como receio de começar a viver pra valer. Fico então ali, parado, fitando para as profundezas do abismo, sem saber o que fazer, como agir, o que pensar.

Às vezes me sinto como uma árvore, uma árvore velha e cansada, já há muito desfolhada e sem vida, ornada apenas por galhos secos e mortos. Uma árvore sendo lentamente asfixiada, sufocada por sua própria casca, já ressecada e endurecida pelos tempo. Uma árvore esperando pela poda, para poder voltar a respirar, voltar a crescer, voltar a viver. Como uma fênix, esperando ser destruída para poder rejuvenescer, para poder renascer, para poder outra vez viver.

Ou talvez apenas não tenha a força necessária para tomar as rédeas de minha história.

Mas, como diria Sofia Serano, “a cada momento temos a chance de virar a mesa”.

Até mesmo no Inferno existe esperança.

domingo, abril 09, 2006

Coisas da não-vida

09:41 de um domingo no qual deveria continuar a dormir... Mas enfim, acordei...

Esses dias, sexta para ser mais exato, aconteceu algo inusitado. Saí com os colegas de trabalho, para a festa de despedida de uma colega. Depois acabamos indo a uma danceteria, ou bar dançante, não sei. No fim da noite, voltamos ao carro de nossa carona, para ter a desagradável surpresa de encontrá-lo com o vidro estourado. O dono do carro perdeu a frente do rádio, sua mala e sei mais o que. Minha perda se resume a um agasalho e mais de meia garrafa de whisky. Gostava muito daquele casado, me sentia bem com ele, muito bem. Mas era apenas um casaco. E foi uma noite agradável.

Isso tudo me fez pensar: o que faz diferença para mim? Ainda estou procurando uma resposta mais plausível, ao invés de simplesmente responder “nada”. Algo deve ser importante, caro e estimado por mim a ponto de fazer alguma diferença. Por que acordo? Por que durmo? Quais são meus sonhos? Possuo algum ideal? Alguma perspectiva? Alguma esperança? Não sei, não sei, três vezes não sei. Tudo por conta de um agasalho.

Mas essa falta de respostas, essa ausência de motivação me preocupada? Não. Porque mesmo essa situação tem pouca relevância para mim. Sinto-me a deriva, flutuando a margem da vida em uma mera existência. Sigo longe de estar realmente vivendo, sigo apenas existindo...

Quero ser tomado de assalto, quero ter minha racionalidade furtada, quero escapar, quero fugir. Acima de tudo quero sentir. Sentir o que quer que seja. Prazer, dor, alegria, sofrimento, ansiedade, angústia, excitação, desejo. Qualquer coisa, não importa. Preciso de algo para me fazer sentir realmente vivo.

Preciso ser mais do que essa coisa morna, sem graça, medíocre. Sinto falta de uma vida de verdade.

terça-feira, abril 04, 2006

Anacrônico Parte V - Ensaio: a Perfeição e a Beleza

A verdade é como a beleza, está nos olhos de quem a vê”.
Concordo parcialmente com esta citação. Estou de acordo com a supremacia da beleza diante da verdade. Contudo, não considero a beleza algo tão subjetivo, tão pessoal. Para mim, a beleza é a imagem da perfeição, existindo além do espectro humano e totalmente independente deste. Para mim, o ser humano surgiu para a beleza e não o inverso.
Imagem porque não se trata da perfeição em si. A perfeição é demasiadamente sutil para nós, justamente por ser perfeita. A perfeição simplesmente escapa de nossos sentidos limitados e de nossa mentalidade parcial e ainda mais limitada. Como não possuímos sentidos ilimitados e mentalidade total, não podemos lidar com a perfeição. A própria idéia de perfeição é apenas uma imagem projetada da perfeição em si, uma imagem rude e grosseira quando comparada ao poder e à sutileza inerentes a beleza. E justamente por ser um espectro da perfeição, a beleza é universal, surgindo em eventos sem qualquer ligação aparente, por isso a beleza surge em todos os aspectos da realidade.
A beleza é como uma intuição, é como pressentir a perfeição intrínseca a totalidade das coisas. Não percebemos a perfeição em si, apenas sentimos sob a superfície da mente a sua existência, a sua aterradora e intensa existência. É como se por uma infinitesimal fração de segundo, o véu a cobrir a realidade se afastasse, deixando escapar vislumbres da própria essência do universo, como um clarão instantâneo dentro da alma. Ainda bem por ser apenas uma ínfima fração de tempo, pois acredito ser uma maior intensidade insuportável, talvez até fatal.
Para mim, esta imagem projetada da perfeição, não deveria ser encarada como característica em si, mas sim como uma sensação, um sentimento provocado pela insinuação da perfeição na realidade visível. Obviamente, como essa sensação afeta os seres varia de indivíduo para indivíduo. A sensação pode ser inebriante, causando uma prazer intenso ao forçar as portas da percepção. Ela também pode ser aterradora, devido ao choque de se ver diante de assombrosa plenitude escondida sob a realidade. Ela ainda pode ter ares de êxtase religioso, devido ao sentimento de integração e interação existente entre todas as coisas, tudo parte de uma mesma ordem. No final, independente das diferenças superficiais, é tudo perfeição.
Para encerrar: a beleza é como, por um instante, encarar para a face daquilo chamado de Deus. E também é como se esse mesmo Deus olhasse para nós, nesse mesmo instante.

sábado, abril 01, 2006

As Cinco Mais Dolorosas

Inspirando pelo filme Alta Fidelidade, seguem as cinco músicas que mais doem, podem chamar de dor-do-cotovelo mesmo...

1) Los Hermanos - Último Romance;
2) Nando Reis - All Star;
3) Nenhum de Nós - Você Vai Lembra;
4) Cássia Eller - Ficaria Completo (Com Você);
5) Legião Urbana - Tempo Perido.

Por favor, caso desejem comentar, não comentem... Coloquem suas próprias listas em lugar de comentários, o efeito será muito mais apreciados por ambos...

quinta-feira, março 30, 2006

Anacrônico Parte IV - Noturno

O Sol deita-se como criança
Morrendo tardio no poente
Restando do dia somente
Uma vermelha lembrança.

Cura a noite suavemente
Toda diária destemperança
E traz a solitária esperança
Nascida no sono inocente.

E o vento sopra seu acorde
Agudo, em notas sibilantes
Os sussurros de uma ode

Elevada por coros distantes
De anjos, na celeste orbe
Com suas vozes cintilantes.


Matheus Filipe

quarta-feira, março 29, 2006

Amor, amor, três vezes amor...

19:06 de quarta-feira, embora ainda pareça ser segunda-feira...

Ontem assisti pela segunda vez “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças”, de Michel Gondry com roteiro de Charlie Kaufman. O filme simplesmente dispensa comentários. É bastante improvável haver uma história de amor menos clichê que Brilho Eterno. É tão verdadeiro que chega a doer. Porque só o amor real e verdadeiro pode ser verdadeiramente e realmente cruel algumas vezes.

(Nota: tudo a seguir baseia-se apenas em impressões... Qualquer semelhança com a realidade pode não ser mera coincidência...)

O amor é uma emoção humana, uma das mais humanas entre as emoções. Então se pressupõe a existência de um ser humano para se emocionar. E o amor pode exigir demais desse ser, pois o amor é um instinto básico da natureza, algo que precede e supera a casualidade do encontro mulher/homem ou variações do mesmo. Então, muitas vezes o amor pode expor nossas fraquezas, nossas falhas de caráter, nossos medos e receios, nossas frustrações, enfim, tudo o que deveria permanecer no subsolo da mente.

A amor é algo de sublime e belo, mas as pessoas podem muito bem ser egoístas e feias. Portanto, um amante pode acabar sendo extremante egoísta, a ponto de se tornar destrutivo, a ponto de preferir acabar com tudo por questões mesquinhas e pequenas. Ciúmes é um exemplo disso, parafraseando Tyler Durden, “a ferida que sararia se parece de mexer nela”. Ciúmes é uma tortura para o alvo, mas também é automutilação para ser ciumento. Ele se machuca para machucar o outro, ele fere o outro por ser incapaz de lidar com sua própria ferida. Por que? Porque o amor às vezes cobra um alto quinhão. E é preciso ser muito forte e ao mesmo tempo flexível para resistir a enxurrada de sentimentos trazidos a tona pelo amor. É humano fraquejar às vezes.

Mas nem por isso é preciso ter medo do amor, como uma amiga acabou me mostrando dia desses. Mas é preciso estar pronto a pagar o preço e lutar para superar os desafios. Mesmo porque, o amor não permite subterfúgios. O amor sempre encontra um meio, se não encontra, ele cria seus próprios meios.

Bem, acho que é isso. Por hora, é só.

terça-feira, março 28, 2006

Comédia e Tragédia no Cyber-Espaço

19:18 de terça-feira, embora ainda pareça segunda-feira...

O título da postagem remete a um conto que li há muito tempo atrás em uma página sobre RPG, o título original é “Amor e Tragédia no Cyber-Espaço”. A minha adaptação é uma alusão aos estilos teatrais da antiga Grécia. No fim, uma coisa tem pouco a ver com a outra, mas enfim, o título soou bem e algumas vezes a estética acaba prevalecendo. Chega de enrolar.

Tenho notado uma tendência crescente entre os marginais da internet, marginais no sentido de realmente estarem à margem, de reclamar sobre a situação atual deste nosso ambiente virtual. Situação é uma aparente e crescente futilidade dentre os internautas. Bem, é apenas a constatação do óbvio. Não é uma situação isolado e restrita ao meio digital. É uma tendência natural da sociedade. Tudo se resume aos valores pregados atualmente.

Por que o interesse quase voyeur em fotos, quando conhecemos alguém interessantes, muitas vezes nem tão interessante, na internet? Ora, vivemos em uma sociedade onde a estética é um forte imperativo, onde é marcante e acentuado o culto à beleza. Não nego, muitas vezes sou um escravo da estética, sendo ela uma importante fator, até mesmo fator decisório em algumas de minhas escolhas. Há qualquer coisa de helênico em mim, no meu sentir. Beleza é sim importante para mim. Mas, como mencionei anteriormente, “a beleza é como a verdade: está nos olhos de quem a vê”. Mas hoje a questão não é essa.

A internet é um reflexo da sociedade que a forma, algumas vezes um pouco distorcido. Então, a chance de encontrar uma pessoa supérflua no ambiente virtual é praticamente idêntica a chance de encontrá-la na rua, em um bar. Assim como as chances de encontrar alguém interessante, como quem se possa manter no mínimo inteligível. A diferença, em ambos os casos, é o enfraquecimento de certas barreias sociais, ajudando um pouco os tímidos e os poucos dotados de traquejo e habilidades sociais. Mas no fim, a diferença entre os ditos dois mundos é ínfima. A internet é apenas mais uma via de comunicação.

Seja no mundo real, seja no mundo real, devemos saber escolher nossas companhias e nossos ambientes. E um pouco menos de hipocrisia não faria mal algum.

Não, López, não importa estar ou não na contra-mão, pois a vida não segue as humanas leis de trânsito.

segunda-feira, março 27, 2006

Anacrônico Parte III - Ensaio: Deus e os detalhes

O Demônio está nos detalhes”.
Discordo dessa citação. Meu pensamento é na verdade a justa oposição. Diferentemente do Diabo, para mim é Deus quem reside nos detalhes. Contudo, entendo perfeitamente essa citação, pois é apenas uma outra perspectiva.
É fácil, terrivelmente fácil, perder o controle de nossas vidas. E esse descontrole é conseqüência dos detalhes, são as decisões tomadas, as escolhas feitas são suas as causadoras. Mas não temos ciência disso, pois não somos capazes de alcançar uma visão total dos acontecimentos. Somos nós os responsáveis pelo nosso destino, apesar de totalmente cegos em relação a essa responsabilidade.
O destino, pode-se dizer, é uma espécie de fórmula matemática. Uma equação, onde são as escolhas e as decisões são as variáveis, e da relação entre elas chega-se a um resultado final, uma relação simples de causas e conseqüências. Devo dizer, contudo, ser quase leviano da minha parte fazer uma simplificação rude como essa, porém, de outra forma seria impossível me expressar.
Na vida, quero dizer, fora de um ambiente controlado, existe um número sem-fim de variáveis agindo e interagindo simultaneamente a todo instante, dentro do intrincado sistema formado por toda a existência, uma sistema orgânico, dinâmico, mutável e extremamente complexo aos humanos sentidos.
E como tal, por ser um sistema, quando há interferências em uma das incontáveis partes, esta interferência se propaga pelo sistema, acabando por interferir, em maior ou menos grau, no todo. Novamente, essa é uma aproximação grosseira, do conceito conhecido como Teoria do Caos.
Minhas crenças pessoais me levam a acreditar em uma ordem implícita por trás de todo o aparente caos da realidade, em uma lógica imperceptível regendo eventos visto como mero acaso. Acredito mesmo não podendo ver, perceber e muito menos compreender esta sutil conexão entre todas as coisas.
Posso apenas sentir, ou mesmo pressentir, essa ordem imperceptível. Algumas pessoas chamam essa minha sensação, essa minha visão de “Deus”. Nada errado quanto a isso, são apenas perspectivas diversas sobre um mesmo ponto. Afinal, o ser humano é intrinsecamente um ser de fé.
Em oposição à citação inicial, deixo aqui uma outra citação: “a matemática é a linguagem usada por Deus para escrever o Universo”.

domingo, março 26, 2006

Quando somos humanos...

17:31 de um domingo estranho, no fim de uma final de semana estranho...

Por onde começar...

Bem, a mais ou menos uma semana, minha avó materna foi vítima de um enfarte. Nada muito grave. Alguns dias no CTI, um pequeno quadro de pneumonia, mas deve ser liberada amanhã. A história poderia bem terminar aqui... Mas na vida real, as histórias nem sempre têm um “final feliz”...

Quando estava me dirigindo para o hospital, acompanhando de alguns parentes, para visitar minha avó, estava com uma sensação estranha, um certo receio. Vejam, até os idos de 2004, trabalhava na área de saúde, freqüentemente visitava o hospital, por motivos burocráticos, nunca fez diferença para mim. Mas dessa vez, algo estava muito errado. E sabia não se tratar de minha avó. Minha avó estava em um quarto particular, com dois leitos. Bem, havia uma senhora no outro leito. Uma senhora em estado terminal. Câncer. Vou ser sincero, a morte nunca foi um problema para mim e continua não sendo. Não, não é a “proximidade da morte” que mexeu comigo. Foi outra coisa. Foi o sofrimento.

A senhora estava ali, na cama, como um nervo exposto aflorando na superfície da realidade. Foi algo tão desumano, o sofrimento ali simplesmente brotando através daquele ser. Nada nos torna tão humano quanto o sofrimento. Toda nossa fragilidade vem à tona, em uma realidade dura e fria. No quarto, havia gente rindo e brincando, como se aquele ser humano nem estivesse ali, sofreste uma dor desumana. Tive de sair do quarto, sentar em um canto e chorar. Sem saber ao certo porque. Chorei pelo sofrimento de uma pessoa sobre a qual não saiba qualquer coisa. Não importa a vida pregressa dela, como era sua personalidade, nada. Naquele momento, era um ser humano sofrendo. E eu também era um ser humano, sofrendo por ela estar sofrendo.

Lembrar dela ainda me enche os olhos de lágrimas...

domingo, março 19, 2006

Tempo Perdido

Não sei quando comecei a escrever este texto... Acho que foi hoje de manhã... Mas ele nasceu ontem, durante uma conversa no msn...

Pare de perder tempo”...
Sim, preciso parar de perder tempo. Não há motivos para perder tempo com atitudes sem sentidos e inúteis, em tentativas fadadas ao fracasso antes mesmo de começarem...
Por que sempre caio nos mesmo labirintos? Labirintos cujos caminhos conheço muito bem, cujos finais nunca mudam... Isso porque eu não mudo... Continuo escravo de velho vícios, sempre tentando racionalizar tudo... Sempre com medo de viver...

Mas de que tenho medo?
Por que tenho medo?

O pior é o fato desse medo acabar envolvendo outras pessoas em um jogo auto-destrutivo. Talvez seja mesmo inconseqüente e indolente em relação as expectativas alheias. Quando minto para mim mesmo acabo mentindo para todos a minha volta. É inevitável. Sempre parece uma bela história, um melodrama, todos acabam acreditando, convenço a todos de meus sentimentos, mas não consigo convencer a mim mesmo. Até tento levar em frente, dar uma chance para as coisas acontecerem, mas no fundo sempre sei onde tudo terminar. As reações variam da tristeza ao rancor, elas podem vir através de lágrimas ou de agressividade. Sempre termina mal, sempre é desgastante para o dois. Mesmo assim não me sinto culpado, não sinto arrependimentos e talvez, por isso mesmo, continue a errar os mesmos erros. Talvez seja mesmo frio e insensível.

Mas não é assim. Admitir isso seria admitir estar brincando com os sentimentos das outras pessoas. Não, não é este o caso. Não é um brincadeira, não é apenas para me aproveitar da situação, não é falta de caráter, canalhice e coisas afins. Não gosto de machucar as pessoas, não gosto de fazê-las se sentirem usadas e descartáveis. E é justamente por isso que sempre dura tão pouco. Não conseguiria manter uma situação assim por muito tempo. É extremamente desgastante. Apenas tento, mesmo sabendo como terminará.

Se existe uma fraqueza no meu caráter, essa falha reside justamente na fraqueza. Sou fraco demais para recuar diante de uma oportunidade, de uma chance destinada ao insucesso. Sou fraco demais para resistir ao impulso destrutivo de entrar em uma relação não estando pronto para isso, ciente de estar mentindo para mim mesmo, sendo omisso mesmo assim. Sou fraco demais para não flertar como mulheres as quais não sinto um desejo verdadeiro e intenso, quando vejo, o mal já está feito, já se encaminhando para o fim.

Tenho medo de ficar sozinho.
Tenho medo de amar.

Sou egoísta. O medo de ficar sozinho me leva a ser destrutivo, me leva a embarcar em relações auto-destrutivas. Não gosto de machucar e magoar as pessoas, mas isso sempre acaba acontecendo. O medo de amar acaba me fazendo entrar em relações de mentira, o medo do amor me leva a viver pseudo-amores, como bem disse uma amiga. A mesma amiga que me disse “tem que parar de perder tempo”. Ela está certa. E não existe talvez aqui, ela está certa e ponto. Vou parar de perder tempo. Espero descobrir forças para empreender essa mudança. Vou precisar de muita força para fazê-lo.

Cansei de ser uma mentira que conto para mim mesmo...

Anacrônico Parte II - Do grafite sobre a folha

Nesta folha branca de tão nívea ternura,
Canta e dança o grafite toda depravação
Do escuro cântico de cinzas e perversão,
De solene ferocidade, um hino à loucura.

Nefasto e letárgico verme da corrupção,
Selvagem entropia devorando a brancura
Nos veios podres e rasos desta sepultura,
Abrindo sua própria tumba, abominação.

Infectos caninos se enterrando na alvura,
Derramando inertes lágrimas de aflição
Por seu destino, apenas agonia e tortura

De uma vida estéril, uma efêmera canção
Da sombria existência da maldita criatura,
Um réquiem deplorável, uma lamentação.


Matheus Filipe

sábado, março 18, 2006

Anacrônico Parte I - Ode

Abro minhas asas noturnas, escuras como pesadelos, sobrevoando um mundo adormecido,
Um reino de sonhos e delírios, um refúgio habitado por quimeras e esfinges...
Salto de uma estrela para a próxima, atravessando nuvens de pensamentos e emoções, flutuando livres no espaço,
Busco minha estrela da fortuna, a única capaz de mudar a minha sombria sina...
Qual flor de luz devo arrancar, deste imenso jardim noturno,
E atirar na Terra para meu desejo realizar?
São tantos sonhos e pesadelos, me perco entre eles, imerso no céu da noite profunda...
Experimento todos os perfumes e aromas das emoções, me afogo nelas,
Provo o cinza das angústias, como o ocre amargo do remorso,
Sinto o inebriante sabor dos anseios, brilhando feito ouro,
Saboreio o escarlate sangüíneo das paixões,
Quente como o inferno...
Ébrio de humanos sentimentos, me perco entre as manchas escuras de nada, naufrago no céu noturno...
À deriva, busco uma estrela para aportar, um porto seguro de calor e luz celeste,
Mas a minha volta somente vejo o frio, apenas sinto o gosto vazio da solidão...
Então percebo... Não posso tocar as estrelas, elas estão além de qualquer terrestre mácula...
Fecho os meus olhos, como se estivesse saindo de um sonho para acordar em um pesadelo...
Sinto a gravidade da mãe-terra reclamar seu tributo... Choro o horror da queda no espaço...
Sinto minhas asas se desfazerem em grãos de poeira cintilante...
Já posso sentir o calor da mãe-terra, queimando minha carne fria, evaporando minhas lágrimas secas,
Enquanto rasgo a escuridão da noite como uma fagulha incandescente,
Como um pequeno ponto de luz descendo entre as estrelas...
Apenas mais uma luz que se apaga...
Eu desejava tomar uma estrela, sacrificar sua pureza para poder me curar...
Eu desejava escapar de uma realidade que julgava não ser a minha...
Mas tudo foi em vão, foi tudo prepotência, egoísmo, imprudência...
Estava olhando na direção errada... E meu erro me trouxe até este derradeiro momento,
Indo de encontro ao desconhecido da morte...
Sozinho com nunca antes...
E agora, nos instantes finais de uma vida, me lembro de tudo que se foi e penso em tudo que não será...
Quando a consciência se esvai célere e fatalmente em direção à morte,
Consigo apenas pensar em uma tardia e profética epígrafe...
Um momentâneo risco no céu, este sou eu,
A mentira de uma estrela cadente...
Pois as estrelas não caem, elas morrem...
E elas não realizam desejos...

Anacrônico - Prelúdio

14:14 de um sábado como outro qualquer... Mais um dia... Menos um dia...

Decido publicar aqui algumas textos e poesias meus mais antigos, todos anteriores a 2004. Foi uma época um tanto o quanto profícua em matéria de produção...

Assim aproveito e faço uma releitura de mim mesmo, pois nos idos daquela época, era uma pessoa um pouco diferente de hoje, principalmente na tocante de minha visão sobre mim mesmo e auto-conhecimento, ou pelo menos julgava ter...

terça-feira, março 14, 2006

Uma carta a ninguém...

Estou de volta. É bom estar de volta... Será mesmo? Talvez seja. Talvez não. Prefiro não pensar sobre isso. Prefiro pensar sobre alguma coisa em particular? Não sei.

Tive uma semana complicada. Estive muito doente. Fui acometido por uma sorrateira e aguda amidalite. “Eu sou as amídalas do Jack. Eu infecciono e ferro com a garganta do Jack”. Tive febre, dores no corpo, prostração, houve formação de placas de pus na garganta, causando dor e dificuldade em engolir, doía até mesmo beber água. Faltei dois dias ao trabalho. Tomei antibiótico. Sofri sozinho meu primeiro problema de saúde sério, desde que saí de casa e passei a morar. Vivo ainda estou, devendo ser este um bom sinal. Enfim.

Agora considerei um ponto. Talvez a amidalite tenha sido um presente ou parte de um inferno astral. Hoje, esta nova fase da minha vida completa um ano. Um ano fora de casa (na verdade saí de casa no dia 13). Um ano morando sozinho (na verdade moro sozinho há onze meses). Um ano sendo meu próprio provedor. Um ano. O tempo realmente voa, mesmo quando não nos estamos divertindo.

O que dizer deste primeiro ano, desta nova vida? Nada. Exatamente: nada.

Por fora, está tudo muito diferente. Mas por dentro, continua aquele velho e tão conhecido vazio, a perene desmotivação, o incessante devir e não mais que isso, apenas um vir a ser. Conheci algumas pessoas e me envolvi com essas pessoas; me envolvi com algumas pessoas, mesmo sem conhecer essas pessoas. Houve tentativas, houve erros. Acertos? Não, pelo menos não os acertos por mim almejados. O que almejo? Um martelo para arrebentar e quebrar a ordem estabelecida, o status quo, ou seja lá como chamem. Uma marreta para rachar e destruir a minha vida como um prédio em ruínas, caindo aos pedaços. Acabar com a letargia, cessar a mediocridade, despertar da dormência. O realmente triste é saber ser eu a única força capaz de gerar essa mudança e ter ciência da minha falta de motivação para fazê-lo. Estou sendo repetitivo e não me importo em ser. A verdade não tem de ser bonita, agradável ou necessária. A verdade tem de ser apenas verdadeira e apenas isto.

Um plano cartesiano. Uma progressão aritmética. Um linha reta seguindo até infinito. Sempre linha. Sempre reta.

Minha esperança reside no Caos, onde às vezes os inesperado acontece e onde às vezes uma linha pode formar uma curva. A matemática é pura lógica, mas somente o é até onde pode ser lógica mente a pensá-la.

Delírios e devaneios...

Talvez seja a febre voltando.
A febre também chamada sanidade...

E feliz aniversário pra mim...

sábado, março 04, 2006

Nada Demais...

19:22 de um dia, pra variar, quente e abafado. E hoje, o dia foi particularmente infernal, no quesito “vida profissional”, caso tal coisa exista. Não entrarei em detalhes, pois seria bastante anti-ético de minha parte, sem contar ser um assunto maçante e enfadonho. Mas Marx estava certo, o trabalho se tornou um fator alienante no mundo capitalista...

O que buscamos na vida? Dinheiro e posses? Realização no âmbito pessoal, profissional ou sentimental? Em tempo, é possível realização parcial, quer dizer, em somente uma das esferas da vida? Acho que a maioria de nós não consegue responder essas perguntas. Digo isso sem medo de errar, pois a maioria de nós não sabe porque fazem as coisas como fazem, porque vivem as suas vidas do modo como vivem. Poucos de nós, até onde percebo, conseguem tirar alguma satisfação de suas vidas. Medo, insegurança, fingimento, falsidade. Temos medo de sermos nós mesmos, de sentir o que sentimos, de querer o que queremos, se seguir nossos impulsos e nossos desejos. Fingimos ser pessoas diferentes, somos falsos, mentimos para os outros e pior, para nós mesmos. Nós nos limitamos, nos inibimos, nos reprimimos em função de convenções e do “bem comum”, que nunca é o nosso bem. Vivemos nossas vidas em função de outras coisas, quando deveríamos vivê-las segundo o que pensamos e sentimos. Mas raramente é assim. Sempre acabamos deixando para viver a vida mais tarde, preferimos trabalhar, estudar, curtir (o que é bem diferente de viver). O que estamos fazendo? Alguém pode dizer?

Sim, sou uma pessoa insatisfeita. Mas sem desculpas e sem colocar a culpa em outrem. Sou o único responsável pela minha situação. Não sei de onde tirar motivação para viver. Não, não estou deprimido e não tenho tendências suicidas. Depressão, na atual conjuntura, seria um evento, seria um acontecimento. Muito pior é a mediocridade, é uma vida sem flutuações, sem altos e baixos, enfim, uma vida sem vida.

Desabafos são assim, quando menos esperamos eles simplesmente surgem...

Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito...

quinta-feira, março 02, 2006

Onze Minutos

18:18 de um fim de tarde/início de noite quente, como tem sido ultimamente... Dias de calor quase insuportável, noites quentes e abafadas... Enfim, um pedacinho do Inferno bem pertinho de você... Mas existem compensações, como um “Céu de Baunilha”, por exemplo...

O carnaval veio e como veio, ele se foi. Não sou muito fã da festa popular preferida pela esmagadora maioria dos brasileiros, assim como não sou fã de futebol. No fim, estou longe do “brasileiro ideal”... Aproveitei o feriado prolongado para dormir até tarde e descansar o restante dos dias. Ainda sobrou tempo para rever pessoas queridas e até mesmo passar pela folia, mas só passar mesmo, pois detesto aglomerações de gente, não curto muito gente no coletivo para ser sincero. Além disso, tive oportunidade de ler um livro e iniciar a leitura de outro, não nesta ordem...

Durante o carnaval li Onze Minutos de Paulo Coelho. Sou um pouco resistente ainda a Paulo Coelho, ou mesmo preconceituoso. Mas sei me deleitar com um bom livro quando a oportunidade surge. O livro em questão é a história de uma pessoa em busca de sua verdade pessoal. É história de Maria, uma prostituta. O livro trata de amor e sexo, de dinheiro e aventura, de escolhas e liberdade. Mas no fim, é apenas uma pessoa tentando se encontrar, tentando se conhecer, tentando se compreender e tentando viver, da melhor forma possível. Poderia ficar aqui o resto do dia falando sobre o livro, mas livros são experiências pessoais e únicas, porque cada leitor transforma o livro ao trazê-lo para seu universo. Então é melhor falar sobre as sensações em mim causadas pelo livro... O livro fala sobre a luz dos olhos...

Esperança... Esperança é sensação mais forte deixada em mim pelo Onze Minutos. Uma romântica esperança, devo dizer. Esperança no amor. Sim, o romantismo apenas adormece, ele nunca morre. O livro colocou em imagens precisas as intuições e sensações, deixando uma certeza gravada: a solidão é simplesmente a falta deixando ausência do amor e somente através do amor a solidão pode deixar de ser. Por que me sinto vazio? Porque não existe amor em mim. Não o amor genético, biológico, sanguíneo e/ou familiar. Não existe em mim o amor encontro, o amor descoberta, o amor entrega, o amor liberdade. Por isso me sinto sozinho no mundo sempre que fecho a porta do quarto atrás de mim. Pode soar clichê, não me importo, mas podemos ter tudo na vida, se não tivermos amor, seremos apenas arremedos de seres humanos, apenas existiremos sem chegarmos a viver. Um coração que não bate por alguém, está apenas bombeando sangue para o corpo e nunca passará disso. Amor... Espero um dia ser capaz de amar... Espero um dia chegar a viver... Espero um dia enxergar a verdadeira luz dos olhos...

Sim, é apenas um livro... Mas sempre existe um pouco de realidade na nossa ficção e um pouco de ficção na nossa realidade...

Dizem que o amor é como uma borboleta: não adianta procurá-lo, pois não irá encontrá-lo; contudo, quando menos se espera, ele surge diante de nossos olhos.

Enquanto isso, eu espero a minha borboleta... Ou minha andorinha...

Poeminha Sentimental

"O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega um
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam".

Carlos Drumonnd de Andrade

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Depois da Tempestade - Parte II...

17:03 de um tarde quente e abafada (pra variar), com um certo ar úmido que pode ou não significar chuva mais tarde... Bem, que chova... Quem acompanha esta digital publicação está ciente de minha relação perante a precipitação atmosférica conhecida por chuva...

Antes de voltar a Tempestade, falarei sobre ontem. Um pequeno texto de cunho pessoal lido por mim ontem despertou algumas recordações, lembrei de coisas vividas a muito, coisas as quais não desejo tornar a viver... Qual a dimensão da linha a separar o amor da dependência? Ou seria apenas imaturidade, falta de habilidade mental e emocional de lidar com os sentimentos? A questão importante é: há diferenças graves e agudas entre o chamado amor e não-declarada dependência emocional. Diferenças essas que não mencionarei aqui, pois meu assunto é outro...

De volta a Tempestade.

Na primeira parte falei sobre imaturidade, agora falarei sobre outro possível problema em meus relacionamentos. “Você é muito frio”. Perdi a conta de quantas vezes ouvi coisas do tipo e variações. Devo confessar: por muito tempo realmente desejei ser um ser frio e sem sentimentos, ser o menos humano possível. Sim, já tive idéias erradas, muito erradas. Achava legal cultivar o “venha para o Lado Negro da Força, Luke”. Gostava de olhar fixamente para o Abismo, esperando Ele olhar de volta para mim. Mas havia um problema, havia minha natureza. Hoje sei: sou uma pessoa romântica, sensível, e nada que fiz ou faça, pode ou poderá mudar isso, mesmo porque já aceitei minha natureza. Pois um escorpião não pode deixar de picar. Hoje vejo aquele culto pessoal ao “lado sombrio” como um forma deturpada de auto-proteção, uma maneira de manter o mundo afastado, algo peculiarmente canceriano posso dizer. Mas isso explica apenas parte da suposta frieza... Sou uma pessoa desmotivada. É uma desmotivação generalizada. Como foi mencionado na Parte I, desejo ardentemente queimar no fogo das paixões, como um tronco verde esperando ansioso por ser consumido pelas chamas. Enquanto isso, permaneço em um estado letárgico, inerte e meio adormecido. Isso pode parece frieza, pode até mesmo ser frieza... Sim, é bastante confuso...

Tudo isso me faz pensar: é da natureza de todas as coisas da criação acabarem. Uma vez que todas as coisas começam em algum ponto para terminarem em algum outro ponto. Mas as pessoas se apegam demais as coisas, mais que isso, elas se apegam ainda mais em uma noção falha do tempo. Então surge a questão principal: as coisas acabam rápido? O que é rápido? Um dia, um ano, um século, um segundo? Qualquer resposta seria questionável, pois se o tempo é infinito, tudo é rápido, é efêmero, tudo é finito. Mas o ser humano se considera o centro de toda a criação, então sua visão é um pouco limitada por sua própria condição. As pessoas passam tempo demais pensando, analisando, lamentando, ao invés de simplesmente viverem suas vidas pateticamente curtas e sem qualquer importância para o Universo. Sim, bastante niilista. Se as coisas acabam, não importa se depois de um segundo ou um milênio, devemos aproveitá-las, devemos viver e viver intensamente os acontecimentos. Nada de passado, nada de futuro, apenas o eterno presente...

Acho que me perdi um pouco... Deve ser o sono... Mas alguma coisa pode ser aproveitada, acho...

E no mais, a única coisa que pode se esperar desse lugar é a visceralidade... E creio ainda estar seguindo o trilha traçada para este lugar... Não sei por quanto tempo mais, mas pelo menos uma vez mais antes do fim...

No mais, estou indo embora, baby...

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Depois da Tempestade - Parte I...

19:45 de uma noite quente como a maioria das noites tem sido ultimamente. Acabo de perder um texto, pelo menos meia hora de trabalho. Seria um sinal ou apenas o micro querendo me sacanear, pra variar? Fico com a segunda opção... Vamos lá tentar recuperar destroços do texto naufragado na vazio da mente e perdido na inexistência da memória RAM... [Ctrl+B]

Era mais ou menos assim... Como uma tempestade tropical, os ventos dos sentimentos sopraram intensos e abrasadores como o hálito de uma antiga e incandescente deusa pagã esquecida. Como um vendaval de sentimentos revolvendo os sedimentos rochosos e morosos no fundo do lago chamado alma. Mas como veio a tempestade “da cor de seus olhos castanhos”, a tempestade se foi para além da linha do horizonte, deixando apenas uma lembrança cinzenta. O ventos cessaram de soprar, soprando agora em lugares feitos de fantasias e algodão, soprando nuvens no azul celeste. Os sedimentos voltaram a repousar inertes no fundo do lago, como estivessem assim desde sempre... Prenúncios de uma tempestade se formam a leste, com seus lampejos amarelados...

Realmente estava inspirado quando escrevi a versão pré-perda desta postagem, agora já não estou tanto, pois grande parte das sensações fora sublimada durante a primeira vez. Cada vez mais tomo consciência da natureza catártica do escrever para mim... Mas voltemos à auto-análise...

Talvez seja imaturo demais para cultivar um relacionamento como ele deve ser cultivado. Talvez me falte a maturidade necessária para lidar com a intensidade dos sentimentos, ou melhor, necessária para não me queimar de uma vez só na pira das sensações. Talvez seja tudo ansiedade. Vontade de que as coisas dêem certo, de que seja “final feliz”. Talvez seja essa ânsia por um romance feito de poesia, essa ânsia por lirismo e sensualidade, essa ânsia por uma poesia composta em carne e desejo, rimas feitas de toques e olhares, verso escritos em lábios e línguas, cadência marcada na respiração entrecortada e ofegante. Poesia feita de corpos e sentimentos. Ou seja, talvez espere demais da vida... Mas quem sabe a vida não conspira a favor, como gosta de promover aquele comercial de cerveja... No meu caso, prefiro seguir acreditando na vida...

Bem, é suficiente por hora...

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Sorriso...

07:39 de uma manhã cinza azulada, nebulosa e estranha, véus esparsos de bruma cobrem alguns segmentos isolados do horizonte. Mas hoje, o amanhecer não é tão importante, não importa a carência de luz e cores da manhã, pois o dia que nasceu em mim já possui luz e cores mais que suficientes para iluminar o colorir o dia lá fora. Por ironia, o modo aleatório começou a tocar Legião Urbana - Tempo Perdido.

Estranho como um sorriso muda tudo. Estranho como um sorriso pode iluminar e colorir novamente uma vida monocromática e sombria. Estranho como pode rachar e quebrar a casca ressequida para deixar o interior e verdadeiro aflorar outra vez. Estranho como pode despertar algo profundamente adormecido, muitas vez visto como perdido. Um sorriso, apenas um sorriso, mas não apenas um sorriso. Um sorriso e tudo muda.

Estranho se pegar pensando no sorriso e sentir a pele ardendo, borboletas no estômago, nó na garganta e aperto no peito. Tudo muito clichê mesmo, mas quem se importa? Que seja clichê. Melhor que seja clichê. Sou romântico, não posso e, atualmente, não desejo deixar de ser. De tão forte chega a ser desconfortável, todo essa sensação precisa sair de algum forma. Então a gente sorri, um sorriso simplesmente brota no rosto, nos lábios e nos olhos; um sorriso inesperado, trazendo uma paz a muito esquecida. Uma paz agradável e faceira, meio ingênua e cheia de saudades. Um sorriso e tudo muda.

Um sorriso como um arco-íris depois da tempestade. Um arco-íris radiante, intenso, de cores vibrantes e vivas. Um arco-íris ao alcance das mãos. Um arco-íris para ser visto, tocado, sentido e provado. Um arco-íris ligando depois corações. A magia surge justamente nos pequenos detalhes, nos olhares, nos sorrisos. Eu já havia me esquecido da magia, de o quanto a magia pode ser real. Esquecido o quanto a realidade pode ser mágica e verdadeira. Um sorriso e tudo muda

Eu falo, falo e falo, mas não consigo traduzir o que sinto. Está muito além do meu alcance. Palavras me faltam e mesmo se soubesse todas as palavras já ditas pelos poetas, ainda seria incapaz de expressar toda essa vida em mim, pulsando e vibrando na lembrança de um sorriso como nunca havia visto um antes, um sorrir no olhar. Um sorriso e tudo muda.

Tudo mudou, não estou mais amargo e arredio, não mais arrisco. Estou livre para ser eu mesmo, de modo pleno e completo, ser apenas eu e nada mais. Pois no seu sorriso eu posso ser eu mesmo, no seu sorriso eu quero, eu preciso ser eu mesmo.

Um sorriso e eu mudei.

domingo, fevereiro 05, 2006

A Ela...

Ariana

Ela é o tipo perfeito da ariana,
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dimana.

As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.

Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana,

Enquanto o amante pálido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne Soberana
.

Augusto dos Anjos

O que eu também não entendo...

11:09 de um domingo diferente, diferentemente mágico... Comecei perdendo o ônibus, torci o tornozelo (nada grave), não dormir a noite inteira, amanheci na rodoviária... Mas querem saber, foi pouco, infinitamente pouco perto do que acontecem nesse período... Nessa madrugada diferente de qualquer outra madrugada...

É simplesmente mágico quando olhamos nos olhos de alguém nos vemos refletidos no brilho desse olhar, quando vemos a luz dos olhos. Cada segundo de solidão, vazio e angústia é compensado inteiramente por esses raros momentos, raros e alucinantes. Momentos cheios de intensidade e densidade, ao mesmo tempo em que repletos de uma tranqüilidade, um aconchego gostoso e delicado. Tudo se torna tão distante quando alguém nos sorri com olhos, pois um sorriso nos lábios pode ser colocado, mas um sorriso no olhar não pode ser simplesmente forjado. Não, ele deve brotar, deve emanar da alma, deve pulsar direto do coração. Um arco-íris que surge em meio à tempestade. Isso acontece, acreditem, acontece...

Quando algo dentro de você disser “pule”, pulem sem medo, mergulhem no absoluto sem receios. Raramente a intuição está errada, quando ela simplesmente surge, quando do nada ouvimos seu chamado. Medo? Medo é natural, porém, ele não deve impedir de vivermos momentos que fazem a vida valer a pena. Se algo em você diz para você fazer algo, existe um bom motivo para isso, pois nosso corpo, nosso inconsciente, tem um alcance muito além de nossa parca consciência. Ele vê além no tempo e no espaço. Então, quando ele percebe algo, ele avisa. E é de bom tom atentarmos a esses avisos e, quando possível, segui-los até o fim. Ou ao menos tentar. Vocês merecem isso.

Nas palavras do grande Vinicius de Moraes,
um trecho de Samba da Bênção:

Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão”.

É engraçado sentir saudades mesmo antes de partir, sentir um aperto na garganta matando as palavras, sentir as lágrimas se insinuarem lá no fundo dos olhos. Tudo por vontade de ficar, simplesmente ficar, sem tempo, sem compromisso, sem ansiedade. Apenas ali ficar, com ela, repetindo o verso da música, “por que está amanhecendo, se não beijar seus lábios quando você se for”? A música é Relicário, do Nando Reis. Ela reflete bem a sensação que senti. Uma madrugada, uma noite sem dormir. Mas por ela, eu nunca mais dormiria, mesmo que fosse para sonhar com ela. Não quero sonhos, eu a quero, real e provável, presente e imediata. Somente ela. Essas coisas acontecem, acreditem, acontecem...

Como será o futuro? Não posso responder. O futuro, felizmente, não me pertence, mas eu pertenço ao presente. Como será a história eu na sei, mas minha intuição diz para eu arriscar, seguir em frente. O que posso fazer então?

Pinta os lábios para escrever a tua boca em mim”.

Já estão pintados, já estão gravados...

sábado, fevereiro 04, 2006

Árvores e Sementes...

18:44 e a tarde virou noite, mas nem por isso deixou para trás o marasmo... Décima postagem... Esperava algo melhor, mas a Epifania nem sempre é generosa... Então, nos contentemos com migalhas...

...“É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal

E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o belo quadro social”...

Às vezes, somente algumas vezes, queria poder fechar os olhos e por alguns momentos deixar de ser o que sou, pois não existe ainda um “quem sou” para deixar de existir. Queria poder abdicar da sensibilidade em favor da futilidade, frivolidade, superficialidade, enfim, me tornar uma pessoa supérflua, rasa e sem conteúdo como uma folha de papel em branco. Talvez assim conseguisse parar de olhar tanto para dentro, não olhasse tanto para o vazio. Vazio...

O vazio é um verme voraz e selvagem, ele segue envenenando nossas entranhas, corroendo nos órgãos, desgastando nossos corações e devorando nossas almas. Sempre a espreita, como predador que é, esperando baixarmos a guarda para cravar suas presas profundas e profanas em nossa carne, para destroçar e despedaçar qualquer paz e alegrias momentâneas. Sim, pode soar exagero, mas pode muito bem ser eufemismo...

Fechar os olhos e esquecer o que sou, mesmo que por instantes. Como em um pacote de Nirvana para a viagem, uma pequena porção de perda do sentido de “eu”. Talvez assim achasse as pessoas mais suportáveis, mais toleráveis, mais aceitáveis. Pois não sendo “eu”, não seria amargo e arredio, não esperaria demais da pessoas, não seria tão seletivo, não seria tão egoísta. Estaria mais disposto a dar oportunidades as pessoas de elas se revelarem, para além da invólucro de superficialidade. Pensaria menos, sentiria menos, sofreia menos...

Mas pode um escorpião deixar de picar? Não posso fugir a minha natureza, pois quis o mistério chamado genética que fosse assim. Pois digam o que disserem, a maior parte de nós surgem quando o óvulo recebe o espermatozóide, apenas uma pequena parte vai sendo criada depois. Como uma planta, a semente já define como será a árvore. A árvore pode ser podada, pode ser cortada, pode sofrer com as intempéries do clima, enfim, sofrer toda a sorte de ação externa a ela, mas a verdade da semente sempre vai permanecer a tudo mais, pois o que é intrínseco permanece sobre o que é superfície. Posso até tentar me podar enquanto árvore, mas o essencial, seja qualquer for eu enquanto semente, permanece inalterado.

Então, ainda há esperanças...

Apenas a semente sabe como será a árvore...

Novamente... Gatos...

17:41 de uma tarde monótona...

Por algum motivo, o Blogger apagou a postagem original deste texto... Talvez não tenha gostado da mudança de nome... Bem, paciência. Cá estou a publicá-lo novamente.
O que posso dizer... Miau...

ODE AO GATO - Artur da Tavola

Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.

Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece.

O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.

Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.

"Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer.

Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.

Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe "ler" pensa que ele não está ali. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.
O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!

Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo.

O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.

Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.

Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.

O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem.