sexta-feira, janeiro 27, 2006

Cotidiano...

Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode as seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã”.

Para qualquer um totalmente alheio a cultura brasileira, esse é o início da música “Cotidiano“, de Chico Buarque. Altamente recomendada. Antes de falar da mim (meu assunto favorito), algumas palavras sobre a música deve ser deixadas aqui. Minha versão preferida da música é na voz de Seu Jorge, por negros cantam com algo além da vez, algo além das palavras, algo além da própria música, sem deixar de ser música. Quanto a letra, é algo quase indizível a capacidade do Chico de construir imagens como “Construção” e “Cotidiano”. Hoje deixarei de lado “Construção”, mesmo sendo ela a melhor para mim.

Nesse dois primeiros versos da música, como em uma estrutura fractal, pode compreender o todo da composição. Qual o tema da música? Eu não arriscaria um palpite. Fala de rotina? De amor? Ela é existencialista, lírica ou mundana? Manterei a prosa em um patamar mais próximo.
Três coisas ficam claras na música: rotina, companheirismo e amor.

O protagonista caminha sobre o fio da navalha. Ele vive uma rotina pesada e desgastante, um dia após o outro, como uma pequena engrenagem em um mecanismo monstruoso chamado sociedade.
Nesse ponto entra o companheirismo, a sua mulher. A mulher é como uma tábua de salvação, ajudando a manter a vida do protagonista vivível, um sopro de uma brisa fresca em sua vida seca.
E ainda resta um componente de erotismo e sensualidade, um espécie de fuga do mundo, uma válvula de escape da tensão, por que não, cotidiana. Agora, ligar tudo em painéis tão bem pintados é obra de um grande artista mesmo. A genialidade é mesmo algo inegável e surpreendente.

A diferença entre o protagonista de “Cotidiano” e eu, reside principalmente na falta de uma companheira, no meu caso. Ou seja, me falta o incentivo, a segurança, a razão que apenas uma mulher pode trazer a vida de um homem. Deve ser recompensador depois de um dia de trabalho, não poucas vezes estressante, deparar-se com um sorriso sincero de alguém, alguém sorrindo por estar feliz em te ver. Pois nessas pequenas coisas encontra-se toda diferença entre uma vida de verdade e um mero existir.

E isso não é romântico da minha parte, apesar de alguns poderem achar o contrário. Romantismo quase sempre apresenta traços de idealismo, algo de lúdico e lírico, ou mesmo onírico. Eu estou falando da vida real, de pequenos prazeres e satisfações da vida real. Nada de juras de amor eterno, paixões ensandecidas e outras loucuras teatrais. Pois existe mais beleza na simplicidade e no dito como comum, indo muito além das mentes e imaginações sofredoras e sonhadoras do românticos.

Não desejo algo ideal. Meu desejo é pelo real, pelo palpável. Desejo uma companheira, não um diva, ou mesmo uma prostituta. Em ambos os casos seria um desejo facilmente realizável. Mas não haveria brilho nos olhos, não haveria luz, não haveria cores. Estou divagando, melhor encerrar por aqui.

Um dia de cada vez, um dia depois do outro.

Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito...”

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