quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Depois da Tempestade - Parte II...

17:03 de um tarde quente e abafada (pra variar), com um certo ar úmido que pode ou não significar chuva mais tarde... Bem, que chova... Quem acompanha esta digital publicação está ciente de minha relação perante a precipitação atmosférica conhecida por chuva...

Antes de voltar a Tempestade, falarei sobre ontem. Um pequeno texto de cunho pessoal lido por mim ontem despertou algumas recordações, lembrei de coisas vividas a muito, coisas as quais não desejo tornar a viver... Qual a dimensão da linha a separar o amor da dependência? Ou seria apenas imaturidade, falta de habilidade mental e emocional de lidar com os sentimentos? A questão importante é: há diferenças graves e agudas entre o chamado amor e não-declarada dependência emocional. Diferenças essas que não mencionarei aqui, pois meu assunto é outro...

De volta a Tempestade.

Na primeira parte falei sobre imaturidade, agora falarei sobre outro possível problema em meus relacionamentos. “Você é muito frio”. Perdi a conta de quantas vezes ouvi coisas do tipo e variações. Devo confessar: por muito tempo realmente desejei ser um ser frio e sem sentimentos, ser o menos humano possível. Sim, já tive idéias erradas, muito erradas. Achava legal cultivar o “venha para o Lado Negro da Força, Luke”. Gostava de olhar fixamente para o Abismo, esperando Ele olhar de volta para mim. Mas havia um problema, havia minha natureza. Hoje sei: sou uma pessoa romântica, sensível, e nada que fiz ou faça, pode ou poderá mudar isso, mesmo porque já aceitei minha natureza. Pois um escorpião não pode deixar de picar. Hoje vejo aquele culto pessoal ao “lado sombrio” como um forma deturpada de auto-proteção, uma maneira de manter o mundo afastado, algo peculiarmente canceriano posso dizer. Mas isso explica apenas parte da suposta frieza... Sou uma pessoa desmotivada. É uma desmotivação generalizada. Como foi mencionado na Parte I, desejo ardentemente queimar no fogo das paixões, como um tronco verde esperando ansioso por ser consumido pelas chamas. Enquanto isso, permaneço em um estado letárgico, inerte e meio adormecido. Isso pode parece frieza, pode até mesmo ser frieza... Sim, é bastante confuso...

Tudo isso me faz pensar: é da natureza de todas as coisas da criação acabarem. Uma vez que todas as coisas começam em algum ponto para terminarem em algum outro ponto. Mas as pessoas se apegam demais as coisas, mais que isso, elas se apegam ainda mais em uma noção falha do tempo. Então surge a questão principal: as coisas acabam rápido? O que é rápido? Um dia, um ano, um século, um segundo? Qualquer resposta seria questionável, pois se o tempo é infinito, tudo é rápido, é efêmero, tudo é finito. Mas o ser humano se considera o centro de toda a criação, então sua visão é um pouco limitada por sua própria condição. As pessoas passam tempo demais pensando, analisando, lamentando, ao invés de simplesmente viverem suas vidas pateticamente curtas e sem qualquer importância para o Universo. Sim, bastante niilista. Se as coisas acabam, não importa se depois de um segundo ou um milênio, devemos aproveitá-las, devemos viver e viver intensamente os acontecimentos. Nada de passado, nada de futuro, apenas o eterno presente...

Acho que me perdi um pouco... Deve ser o sono... Mas alguma coisa pode ser aproveitada, acho...

E no mais, a única coisa que pode se esperar desse lugar é a visceralidade... E creio ainda estar seguindo o trilha traçada para este lugar... Não sei por quanto tempo mais, mas pelo menos uma vez mais antes do fim...

No mais, estou indo embora, baby...

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Depois da Tempestade - Parte I...

19:45 de uma noite quente como a maioria das noites tem sido ultimamente. Acabo de perder um texto, pelo menos meia hora de trabalho. Seria um sinal ou apenas o micro querendo me sacanear, pra variar? Fico com a segunda opção... Vamos lá tentar recuperar destroços do texto naufragado na vazio da mente e perdido na inexistência da memória RAM... [Ctrl+B]

Era mais ou menos assim... Como uma tempestade tropical, os ventos dos sentimentos sopraram intensos e abrasadores como o hálito de uma antiga e incandescente deusa pagã esquecida. Como um vendaval de sentimentos revolvendo os sedimentos rochosos e morosos no fundo do lago chamado alma. Mas como veio a tempestade “da cor de seus olhos castanhos”, a tempestade se foi para além da linha do horizonte, deixando apenas uma lembrança cinzenta. O ventos cessaram de soprar, soprando agora em lugares feitos de fantasias e algodão, soprando nuvens no azul celeste. Os sedimentos voltaram a repousar inertes no fundo do lago, como estivessem assim desde sempre... Prenúncios de uma tempestade se formam a leste, com seus lampejos amarelados...

Realmente estava inspirado quando escrevi a versão pré-perda desta postagem, agora já não estou tanto, pois grande parte das sensações fora sublimada durante a primeira vez. Cada vez mais tomo consciência da natureza catártica do escrever para mim... Mas voltemos à auto-análise...

Talvez seja imaturo demais para cultivar um relacionamento como ele deve ser cultivado. Talvez me falte a maturidade necessária para lidar com a intensidade dos sentimentos, ou melhor, necessária para não me queimar de uma vez só na pira das sensações. Talvez seja tudo ansiedade. Vontade de que as coisas dêem certo, de que seja “final feliz”. Talvez seja essa ânsia por um romance feito de poesia, essa ânsia por lirismo e sensualidade, essa ânsia por uma poesia composta em carne e desejo, rimas feitas de toques e olhares, verso escritos em lábios e línguas, cadência marcada na respiração entrecortada e ofegante. Poesia feita de corpos e sentimentos. Ou seja, talvez espere demais da vida... Mas quem sabe a vida não conspira a favor, como gosta de promover aquele comercial de cerveja... No meu caso, prefiro seguir acreditando na vida...

Bem, é suficiente por hora...

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Sorriso...

07:39 de uma manhã cinza azulada, nebulosa e estranha, véus esparsos de bruma cobrem alguns segmentos isolados do horizonte. Mas hoje, o amanhecer não é tão importante, não importa a carência de luz e cores da manhã, pois o dia que nasceu em mim já possui luz e cores mais que suficientes para iluminar o colorir o dia lá fora. Por ironia, o modo aleatório começou a tocar Legião Urbana - Tempo Perdido.

Estranho como um sorriso muda tudo. Estranho como um sorriso pode iluminar e colorir novamente uma vida monocromática e sombria. Estranho como pode rachar e quebrar a casca ressequida para deixar o interior e verdadeiro aflorar outra vez. Estranho como pode despertar algo profundamente adormecido, muitas vez visto como perdido. Um sorriso, apenas um sorriso, mas não apenas um sorriso. Um sorriso e tudo muda.

Estranho se pegar pensando no sorriso e sentir a pele ardendo, borboletas no estômago, nó na garganta e aperto no peito. Tudo muito clichê mesmo, mas quem se importa? Que seja clichê. Melhor que seja clichê. Sou romântico, não posso e, atualmente, não desejo deixar de ser. De tão forte chega a ser desconfortável, todo essa sensação precisa sair de algum forma. Então a gente sorri, um sorriso simplesmente brota no rosto, nos lábios e nos olhos; um sorriso inesperado, trazendo uma paz a muito esquecida. Uma paz agradável e faceira, meio ingênua e cheia de saudades. Um sorriso e tudo muda.

Um sorriso como um arco-íris depois da tempestade. Um arco-íris radiante, intenso, de cores vibrantes e vivas. Um arco-íris ao alcance das mãos. Um arco-íris para ser visto, tocado, sentido e provado. Um arco-íris ligando depois corações. A magia surge justamente nos pequenos detalhes, nos olhares, nos sorrisos. Eu já havia me esquecido da magia, de o quanto a magia pode ser real. Esquecido o quanto a realidade pode ser mágica e verdadeira. Um sorriso e tudo muda

Eu falo, falo e falo, mas não consigo traduzir o que sinto. Está muito além do meu alcance. Palavras me faltam e mesmo se soubesse todas as palavras já ditas pelos poetas, ainda seria incapaz de expressar toda essa vida em mim, pulsando e vibrando na lembrança de um sorriso como nunca havia visto um antes, um sorrir no olhar. Um sorriso e tudo muda.

Tudo mudou, não estou mais amargo e arredio, não mais arrisco. Estou livre para ser eu mesmo, de modo pleno e completo, ser apenas eu e nada mais. Pois no seu sorriso eu posso ser eu mesmo, no seu sorriso eu quero, eu preciso ser eu mesmo.

Um sorriso e eu mudei.

domingo, fevereiro 05, 2006

A Ela...

Ariana

Ela é o tipo perfeito da ariana,
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dimana.

As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.

Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana,

Enquanto o amante pálido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne Soberana
.

Augusto dos Anjos

O que eu também não entendo...

11:09 de um domingo diferente, diferentemente mágico... Comecei perdendo o ônibus, torci o tornozelo (nada grave), não dormir a noite inteira, amanheci na rodoviária... Mas querem saber, foi pouco, infinitamente pouco perto do que acontecem nesse período... Nessa madrugada diferente de qualquer outra madrugada...

É simplesmente mágico quando olhamos nos olhos de alguém nos vemos refletidos no brilho desse olhar, quando vemos a luz dos olhos. Cada segundo de solidão, vazio e angústia é compensado inteiramente por esses raros momentos, raros e alucinantes. Momentos cheios de intensidade e densidade, ao mesmo tempo em que repletos de uma tranqüilidade, um aconchego gostoso e delicado. Tudo se torna tão distante quando alguém nos sorri com olhos, pois um sorriso nos lábios pode ser colocado, mas um sorriso no olhar não pode ser simplesmente forjado. Não, ele deve brotar, deve emanar da alma, deve pulsar direto do coração. Um arco-íris que surge em meio à tempestade. Isso acontece, acreditem, acontece...

Quando algo dentro de você disser “pule”, pulem sem medo, mergulhem no absoluto sem receios. Raramente a intuição está errada, quando ela simplesmente surge, quando do nada ouvimos seu chamado. Medo? Medo é natural, porém, ele não deve impedir de vivermos momentos que fazem a vida valer a pena. Se algo em você diz para você fazer algo, existe um bom motivo para isso, pois nosso corpo, nosso inconsciente, tem um alcance muito além de nossa parca consciência. Ele vê além no tempo e no espaço. Então, quando ele percebe algo, ele avisa. E é de bom tom atentarmos a esses avisos e, quando possível, segui-los até o fim. Ou ao menos tentar. Vocês merecem isso.

Nas palavras do grande Vinicius de Moraes,
um trecho de Samba da Bênção:

Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão”.

É engraçado sentir saudades mesmo antes de partir, sentir um aperto na garganta matando as palavras, sentir as lágrimas se insinuarem lá no fundo dos olhos. Tudo por vontade de ficar, simplesmente ficar, sem tempo, sem compromisso, sem ansiedade. Apenas ali ficar, com ela, repetindo o verso da música, “por que está amanhecendo, se não beijar seus lábios quando você se for”? A música é Relicário, do Nando Reis. Ela reflete bem a sensação que senti. Uma madrugada, uma noite sem dormir. Mas por ela, eu nunca mais dormiria, mesmo que fosse para sonhar com ela. Não quero sonhos, eu a quero, real e provável, presente e imediata. Somente ela. Essas coisas acontecem, acreditem, acontecem...

Como será o futuro? Não posso responder. O futuro, felizmente, não me pertence, mas eu pertenço ao presente. Como será a história eu na sei, mas minha intuição diz para eu arriscar, seguir em frente. O que posso fazer então?

Pinta os lábios para escrever a tua boca em mim”.

Já estão pintados, já estão gravados...

sábado, fevereiro 04, 2006

Árvores e Sementes...

18:44 e a tarde virou noite, mas nem por isso deixou para trás o marasmo... Décima postagem... Esperava algo melhor, mas a Epifania nem sempre é generosa... Então, nos contentemos com migalhas...

...“É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal

E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o belo quadro social”...

Às vezes, somente algumas vezes, queria poder fechar os olhos e por alguns momentos deixar de ser o que sou, pois não existe ainda um “quem sou” para deixar de existir. Queria poder abdicar da sensibilidade em favor da futilidade, frivolidade, superficialidade, enfim, me tornar uma pessoa supérflua, rasa e sem conteúdo como uma folha de papel em branco. Talvez assim conseguisse parar de olhar tanto para dentro, não olhasse tanto para o vazio. Vazio...

O vazio é um verme voraz e selvagem, ele segue envenenando nossas entranhas, corroendo nos órgãos, desgastando nossos corações e devorando nossas almas. Sempre a espreita, como predador que é, esperando baixarmos a guarda para cravar suas presas profundas e profanas em nossa carne, para destroçar e despedaçar qualquer paz e alegrias momentâneas. Sim, pode soar exagero, mas pode muito bem ser eufemismo...

Fechar os olhos e esquecer o que sou, mesmo que por instantes. Como em um pacote de Nirvana para a viagem, uma pequena porção de perda do sentido de “eu”. Talvez assim achasse as pessoas mais suportáveis, mais toleráveis, mais aceitáveis. Pois não sendo “eu”, não seria amargo e arredio, não esperaria demais da pessoas, não seria tão seletivo, não seria tão egoísta. Estaria mais disposto a dar oportunidades as pessoas de elas se revelarem, para além da invólucro de superficialidade. Pensaria menos, sentiria menos, sofreia menos...

Mas pode um escorpião deixar de picar? Não posso fugir a minha natureza, pois quis o mistério chamado genética que fosse assim. Pois digam o que disserem, a maior parte de nós surgem quando o óvulo recebe o espermatozóide, apenas uma pequena parte vai sendo criada depois. Como uma planta, a semente já define como será a árvore. A árvore pode ser podada, pode ser cortada, pode sofrer com as intempéries do clima, enfim, sofrer toda a sorte de ação externa a ela, mas a verdade da semente sempre vai permanecer a tudo mais, pois o que é intrínseco permanece sobre o que é superfície. Posso até tentar me podar enquanto árvore, mas o essencial, seja qualquer for eu enquanto semente, permanece inalterado.

Então, ainda há esperanças...

Apenas a semente sabe como será a árvore...

Novamente... Gatos...

17:41 de uma tarde monótona...

Por algum motivo, o Blogger apagou a postagem original deste texto... Talvez não tenha gostado da mudança de nome... Bem, paciência. Cá estou a publicá-lo novamente.
O que posso dizer... Miau...

ODE AO GATO - Artur da Tavola

Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.

Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece.

O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.

Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.

"Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer.

Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.

Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe "ler" pensa que ele não está ali. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.
O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!

Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo.

O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.

Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.

Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.

O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Invocação Para Um Dia Líquido...

19:52 de um dia bastante agradável, sem aquele maldito calor dos dias anteriores... E melhor, choveu... “Bombo trovejou a chuva choveu”...

O título da postagem é uma alusão ao título da música Chover, do Cordel do Fogo Encantado. Uma música é incrível de uma banda incrível.

Chuva. Chuva é a ligação, é o elo inquebrável entre o Céu e a Terra, é mágica... Tenho uma forte sintonia com a chuva, pois ela afeta diretamente o meu estado de espírito. Devo ser meio árvore, pois a chuva me faz bem, ela me faz muito bem. Eu gosto de tudo na chuva, de vê-la, de ouvir seus sons, de sentir seu cheiro, de provar seu gosto, de me molhar sob ela quando caí serena, de me encharcar sob ela quando caí pesada. Quando estou em contato com a chuva, me sinto em contato com algo muito maior do que eu, algo de todo perfeito, algo de todo belo. Algumas pessoas chamam esse algo de “deus”, outras chamam de “deusa”, alguns ainda chamam de “consciência cósmica”, e ainda tem aquelas a acreditar não passar tudo de ilusão. Bem, esse algo pra mim é bastante claro, esse algo pra mim é a vida. A chuva é como lágrimas vertidas pela vida e derramadas sobre nós. Não por acaso, desde remotos tempo, a chuva é a associada a vida, a fertilidade, a colheita. A chuva é vida.

Chuva é a única religião de que necessito. Religião é uma palavra de origem latina, cujo sentido reverta a “religar”. Religião é uma tentativa de nos religar a algo, algo por nós abandonados quando começamos a pensar demais e sentir de menos. Chuva para mim é exatamente isso, um reencontro, uma redescoberta, é entrar em contato com algo a muito esquecido. Quando me encontro com a chuva, é como voltar fazer parte da natureza durante o breve tempo de sua duração. A chuva é um chamado da natureza, uma reconciliação... Nunca é apenas chuva, mesmo porque nada na vida é “apenas alguma coisa”. As coisas da vida estão aí no mundo para serem vividas.

Cordel do Fogo Encantado - Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido)

"O sabiá no sertão
Quando canta me comove
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Porque tem a obrigação
De só cantar quando chove

Chover chover
Valei-me Ciço o que posso fazer
Chover chover
Um terço pesado pra chuva descer
Chover chover
Até Maria deixou de moer
Chover chover
Banzo Batista, bagaço e banguê

Chover chover
Cego Aderaldo peleja pra ver
Chover chover
Já que meu olho cansou de chover
Chover chover
Até Maria deixou de moer
Chover chover
Banzo Batista, bagaço e banguê

Meu povo não vá simbora
Pela Itapemirim
Pois mesmo perto do fim
Nosso serão tem melhora
O céu tá calado agora
Mais vai dar cada trovão
De escapulir torrão
De paredão de tapera

Bombo trovejou a chuva choveu

Choveu choveu
Lula Calixto virando Mateus
Chover chover
O bucho cheio de tudo que deu
Chover chover
suor e canseira depois que comeu
Chover chover
Zabumba zunindo no colo de Deus
Chover chover
Inácio e Romano meu verso e o teu
Chover chover
Água dos olhos que a seca bebeu

Quando chove no sertão
O sol deita e a água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Que a fome pedia esmola

Seu boiadeiro por aqui choveu
Seu boiadeiro por aqui choveu
Choveu que amarrotou
Foi tanta água que meu boi nadou"