Abro minhas asas noturnas, escuras como pesadelos, sobrevoando um mundo adormecido,
Um reino de sonhos e delírios, um refúgio habitado por quimeras e esfinges...
Salto de uma estrela para a próxima, atravessando nuvens de pensamentos e emoções, flutuando livres no espaço,
Busco minha estrela da fortuna, a única capaz de mudar a minha sombria sina...
Qual flor de luz devo arrancar, deste imenso jardim noturno,
E atirar na Terra para meu desejo realizar?
São tantos sonhos e pesadelos, me perco entre eles, imerso no céu da noite profunda...
Experimento todos os perfumes e aromas das emoções, me afogo nelas,
Provo o cinza das angústias, como o ocre amargo do remorso,
Sinto o inebriante sabor dos anseios, brilhando feito ouro,
Saboreio o escarlate sangüíneo das paixões,
Quente como o inferno...
Ébrio de humanos sentimentos, me perco entre as manchas escuras de nada, naufrago no céu noturno...
À deriva, busco uma estrela para aportar, um porto seguro de calor e luz celeste,
Mas a minha volta somente vejo o frio, apenas sinto o gosto vazio da solidão...
Então percebo... Não posso tocar as estrelas, elas estão além de qualquer terrestre mácula...
Fecho os meus olhos, como se estivesse saindo de um sonho para acordar em um pesadelo...
Sinto a gravidade da mãe-terra reclamar seu tributo... Choro o horror da queda no espaço...
Sinto minhas asas se desfazerem em grãos de poeira cintilante...
Já posso sentir o calor da mãe-terra, queimando minha carne fria, evaporando minhas lágrimas secas,
Enquanto rasgo a escuridão da noite como uma fagulha incandescente,
Como um pequeno ponto de luz descendo entre as estrelas...
Apenas mais uma luz que se apaga...
Eu desejava tomar uma estrela, sacrificar sua pureza para poder me curar...
Eu desejava escapar de uma realidade que julgava não ser a minha...
Mas tudo foi em vão, foi tudo prepotência, egoísmo, imprudência...
Estava olhando na direção errada... E meu erro me trouxe até este derradeiro momento,
Indo de encontro ao desconhecido da morte...
Sozinho com nunca antes...
E agora, nos instantes finais de uma vida, me lembro de tudo que se foi e penso em tudo que não será...
Quando a consciência se esvai célere e fatalmente em direção à morte,
Consigo apenas pensar em uma tardia e profética epígrafe...
Um momentâneo risco no céu, este sou eu,
A mentira de uma estrela cadente...
Pois as estrelas não caem, elas morrem...
E elas não realizam desejos...