segunda-feira, abril 10, 2006

Devir

Assim me sinto, um perene “vir a ser”.

Olho para o horizonte tentando vislumbrar as formas sinuosas e indistintas do futuro, a silhueta delicada e frágil da esperança. São como miragens de um oásis no meio do deserto, como promessas falsas de uma ventura improvável. Apenas fito a linha do horizonte, sem cobiçá-la, sem desejá-la. Apenas um olhar conformado, vazio e sem destino certo.

Estou sempre a beira do abismo, na iminência de despencar do precipício, despencar para o desconhecido, para o novo, para a vida. Sopra uma brisa leve e refrescante vinda do abismo, como um sopro de vida, de vitalidade, de energia. Mas não salto. Fico ali, apenas sentindo a suavidade da brisa, como medo de me atirar no absoluto, como receio de começar a viver pra valer. Fico então ali, parado, fitando para as profundezas do abismo, sem saber o que fazer, como agir, o que pensar.

Às vezes me sinto como uma árvore, uma árvore velha e cansada, já há muito desfolhada e sem vida, ornada apenas por galhos secos e mortos. Uma árvore sendo lentamente asfixiada, sufocada por sua própria casca, já ressecada e endurecida pelos tempo. Uma árvore esperando pela poda, para poder voltar a respirar, voltar a crescer, voltar a viver. Como uma fênix, esperando ser destruída para poder rejuvenescer, para poder renascer, para poder outra vez viver.

Ou talvez apenas não tenha a força necessária para tomar as rédeas de minha história.

Mas, como diria Sofia Serano, “a cada momento temos a chance de virar a mesa”.

Até mesmo no Inferno existe esperança.

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