segunda-feira, maio 29, 2006

Justiça Poética?

Antigamente chamado “patinho feio”, hoje o cisne, em seus traços elegantes e refinados, nada triste, quase planando sobre superfície do lago. Sua cabeça está baixa, olhando através da água translúcida, buscando nas profundezas do lago repostas para as profundas dúvidas de sua alma. Sim, ele poderia voar, poderia escapar de sua sina, ele deseja voar, ele anseia escapar... Mas para onde? Para onde voar, para onde escapar, se o peso do mundo ele guarda no peito.

“Você parece triste, cisne... O que lhe aflige?”

Vim ao mundo entre patos e marrecos, entre barulheira caótica destas criaturas. Por muito tempo tentei me aceitar com um deles, mas eles não me aceitavam, eu mesmo não me aceitava. Desejava voar entre as nuvens, conhecer o prazer de voar, enquanto eles desejavam apenas migrar. Desejava dançar levemente sobre as águas, enquanto eles desejavam apenas nadar e buscar alimento. Esperava da vida amor e sentimento, o outro queriam apenas procriar.

“Mas você não é como eles... Você é um nobre cisne...”

A nobreza é um fardo pesado, ainda mais para ser carregado sozinho. A natureza nobre cobra um alto tributo de seus escolhidos. Não podemos fechar os olhos para os chamadas de nossa natureza mais intrínseca, para nossos instintos. Mesmo sofrendo, mesmo torturados, devemos ser quem nós somos. Eu aceito a minha sina, aceito o meu destino. Mesmo sendo tolo às vezes, mesmo sofrendo, mesmo chorando.

Uma lágrima rola dos olhos verdes do cisne, uma lágrima cristalina, que forma perfeitos arcos concêntricos quando toca a superfície do lago. O cisne segue sua dança sombria no lago, como se avançasse ao som de um réquiem.

“É uma história complicada, onde os personagens sofrem por serem nobres, sofrem por serem melhores, sofrem por serem capazes de sentir”.

domingo, maio 28, 2006

Dom da Surpresa

Já tinha me esquecido como é bom ser surpreendido, no caso, a surpresa ao descobrir algo excepcional. Estou falando de livros e histórias em quadrinhos (simplesmente denominadas “HQ” de agora em diante), que não deixam de ser uma forma arrojada de livros. Como diria meu primo Diego Filipe, “livros: são aquelas coisas que tem o universo dentro”. Livros são portas, portas para levar ao ambiente mais improvável e o terreno mais desconhecido de nós mesmos: nossa imaginação. Livros, se você lhe conceder o mínimo liberdade de ação, se você se entregar a leitura, eles se transformam em forças transformadoras.

Um livro não é algo estático, muito pelo contrário. Livros são recriado a cada nova leitura, a cada novo leitor. E cada leitor, caso se entregue mesmo a experiência, emerge diferente a cada leitura, uma nova pessoa. É como se a cada nova leitura, a cada novo livro, o mundo revelasse um novo pedaço da realidade normalmente inalcançável. Não é algo claro, mas quando você chega ao fim, algo mudou, algo está diferente, você pode sentir como eletricidade estática no ar.

Mas nada supera a experiência de ser surpreendido por um final arquitetado com maestria. É como música clássica, é como um pôr-do-sol rosado, ou seja, é o final que te pega de surpresa mas não poderia ser de outra maneira. É como um soco na nuca, você é percorrido por um calafrio na espinha, frio na barriga, você começa a tremer. Sim, alguma vezes chega a ser físico, um reflexo corporal de golpe na mente. Isso aconteceu comigo duas vezes, em situações bem distintas. Se desconhece o final de “Grande Sertão: Veredas”, talvez ele fosse o terceiro da lista. Mas a vida tem dessas coisas.

O primeiro foi alguns anos, lendo “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. Uma obra do chamado “Realismo Fantástico”, uma obra por si só fantástica. Mas nada, nada, no decorrer da história prepara o leitor para gran finale, para o clímax. É pouco menos de uma página, mas seu efeito foi devastador. Bombástico. Aterrador. Lembro que cheguei a jogar o livro sobre a mesa, me levantei e proferi alguns palavrões. Fiquei zonzo, atordoado, trêmulo. Nunca vi um final tão final como aquele. Foi o melhor exemplo de tragédia grega já lido por mim, mesmo não sendo grega. A história forma um ciclo perfeito, as coisas começam e terminam no mesmo ponto. Um termino simplesmente espetacular para livro espetacular, devo acrescentar.

A segunda foi ontem a noite, quando terminei de ler “Planetary: O Quarto Homem”, de Warren Ellis, segundo volume publicado no Brasil. Uma HQ que leva a sério a questão de “abrir as portas da percepção”. A série é uma viagem através do imaginário da cultura pop do Século XX. Uma releitura de nossa cultura sobre super-heróis. Acreditem, Planetary está longe de ser infantil ou comum. É uma nova experiência. São histórias fechadas, tudo é muito incerto, uma incerteza perene permeia toda a obra. Os dois volumes publicados compilam as doze revistas da série e a número doze é fecha um arco de histórias com um final simplesmente apoteótico. Olha que já tive a oportunidade de ler várias HQ’s de alto nível, com roteiros primorosos, mas Planetary lança o mundo das HQ’s para um próximo nível. Acreditem, é impressionante.

Bem, acho que o recado está dado. Desculpe se foi um pouco confuso, mas ainda estou meio em estado de choque. Aguardo ansioso pela continuidade dessa saga.

É um mundo estranho. Vamos mantê-lo assim”.

sábado, maio 27, 2006

Grande Sertão: Veredas

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens".

João Guimarães Rosa.

Uma pequena homenagem ao cinqüentenário de publicação deste clássico da nossa literatura.

P.S.: Em ocasiões como esta, meu orgulho de ser mineiro se renova...

quinta-feira, maio 25, 2006

Hino ao Vazio

Vejo o fio preciso, a frieza da navalha,
A pele rompendo, a carne em seguida,
Tênue linha da vida jaz então partida,
Existência, agora apenas uma migalha.

Escorre o sangue sua trilha só de ida,
Como insidiosa torrente fora da calha,
Segue o fluxo de uma trajetória falha,
Líquida memória de uma vida perdida.

Sinto a proximidade gélida e estremeço,
Congela até os ossos este suave inverno,
Furta a consciência, deita o véu espesso,

Finalmente submerge o mundo externo
E então, o sono sem sonhos adormeço,
O sono sem-fim do descanso eterno.


Matheus Filipe.

terça-feira, maio 23, 2006

Hipocrisia

Um coisa digo: eu tentei. Tentei ficar calado, tentei não me pronunciar a respeito, tentei não me posicionar, mas agora as coisas ficaram preocupantes. Há poucos dias o Brasil, ou melhor, São Paulo viveu uma situação similar a uma guerra civil. A população em geral ficou chocada, abismada, estarrecida, revoltada com a situação. Surgiu uma sensação de desalento, de fragilidade, de impotência. A ilusão da segurança sofreu um grave golpe em sua, por que não, frágil integridade. Mas agora a situação está, dentro do possível, se normalizando. E isso, justamente, é o motivo de minha preocupação.

Enquanto o palco da guerra estava armado, ninguém se importava com a política do “bandido bom é bandido morto”. O uso letal da força era justificável. Bem, os bandidos estão cientes dos riscos assumidos em sua atividade, assim como o policial sabe da possibilidade de poder ser morto em serviço. Em uma guerra, pessoas morrem, é esperado as pessoas morrerem, de ambos os lados, ou mesmo civis, pois sempre ocorrem danos acidentais e efeitos colaterais. Intimamente todos aqueles ligados ou afetados pela guerra aceitam a regra implícita da mortalidade, embora possam negar e rejeitar a possibilidade publicamente.

Mas agora, após uma súbita calmaria, aparentemente motivada por motivos obscuros (e não escusos como alguns afirmam) a política de antes volta a valer: “bandido bom é bandido vivo e tratado com respeito”. Sim, os bandidos mataram policiais e cidadãos comuns, atentados contra o patrimônio público, inclusive queimando escolas e biblioteca (o que pode ser visto como uma espécie distorcida de favor a autoridade estabelecida). Mesmo assim os policiais devem usar o mínimo aceitável de violência contra os agentes do terror organizado. A barbárie não deve ser tratada como barbárie, deve ser tratada como pessoas civilizadas. Sim, Direitos Humanos. Estranho os tais defensores os direitos universais de todos ser humano serem tão parciais e unilaterais. Podem eles, tentando defender a justiça, serem tão injustos? Nunca há uma resposta fácil para este tipo de questão.

Vejam bem, agora corremos o risco de transformar os policiais, sim, aqueles mesmos alvos de chacinas e execuções sumárias, podem acabar sendo vilões no fim das contas, podem acabar sendo crucificados. Como entender isso: primeiros a polícia é chamada de omissa, por deixar os ataques acontecerem (afinal não forem, policiais, a morrerem) e depois são chamados de assassinos por fazerem o que devia ser feito. Difícil entender algumas a lógica das coisas no Brasil. É como estar sempre entre a cruz e a espada.

E a população? Bem, mais uma vez a situação de vítima das circunstâncias parece muito atraente. Manter-se indiferente parece a melhor saída. Recolocar os monstros de volta aos armários. Acreditar novamente na ilusão da segurança. E viveremos felizes para sempre, ou até a morte, o que chegar antes.

Uma lição de democracia permanece, nas palavras do malvadinho:
"Olha que democrático, ricos e pobres cheios de medo..."

segunda-feira, maio 22, 2006

Anacrônico Parte VIII - Aeroporto

Como voar, toda criança sabe,
Mesmo sem ter asas ou avião,
Embarcam elas na imaginação,
Antes que a brincadeira acabe.

Quando o dia está frio, o verão
É o seu destino, se caso desabe
A chuva, o céu sempre se abre
Quando aporta sua embarcação.

Mas quem de nós, os adultos,
Se lembra, com tantos tumultos
Na vida, como é esse sentimento,

Como é fazer de conta, brincar,
Deixar a imaginação nos levar
Para onde só haja divertimento.


Matheus Filipe

sexta-feira, maio 19, 2006

Ressaca

Assim me sinto após esta primeira semana do retorno a rotina: um embrulho no estômago, um nó na garganta, um mal-estar, uma náusea, resumindo, um nojo generalizado. O período de afastamento gerou uma sensação efêmera de liberdade e acabou por me inebriar com seu veneno suave de esquecimento e de irresponsabilidade. Cá estou agora, como este gosto moral de guarda-chuva na mente. Deve ser a tal “ressaca moral”.

Olho ao redor e vejo apenas o asco preencher e impregnar tudo. Cada vez mais tenho a certeza de estar vivendo uma vida que não é para mim. Volto meus passos, regressos no tempo, tento descobrir porque tomei certas decisões no passado, escolhas resultando na situação onde me encontro atualmente. Leviandade me parece a resposta mais provável. Fui leviano comigo mesmo. Fui omisso. Fui irresponsável. Fui imprudente.

Mas existe um feixe de esperança ainda: inconformismo. Estou começando a trilhar um caminho sem volta e este caminho vai alterar o rumo das coisas. Minha vida vai mudar novamente. Apenas desejo ser uma mudança para melhor dessa vez.

Que assim seja.

P.S.: desculpe pela precariedade da postagem, mas não posso dar muitos detalhes, pois incorreria em falta de ética. Prefiro manter parte da minha alma intacta para barganhá-la mais tarde quem sabe...

quinta-feira, maio 18, 2006

Anacrônico Parte VII - Ensaio: Impressões

Existe qualquer coisa de heresia em minhas palavras, admito. E meu pecado reside justamente em minha incredulidade, em minha total descrença e completa falta de fé na humanidade. Contudo, não há subversão em minhas palavras, não devem confundir minha insatisfação e angústia com algum tipo de rebeldia e insurreição. Não, minhas palavras são apenas isto, palavras. E minhas palavras nada podem contra a inevitabilidade e o fatalismo das coisas. Portanto, a mim, resta apenas observar e deixar aqui algumas de minhas peculiares impressões.
Pode soar pessimista, ou até mesmo radical de minha parte, mas não posso me omitir em dizer: para mim, a humanidade está, por assim dizer, em franco declínio. Não me refiro, obviamente, a qualquer espécie de cientificismo, pois inegável é o progresso das humanas ciências mesmo sendo este progresso, em si mesmo, questionável.
A decadência humana é de todo, algo mais sensível, crítico e essencial. A decadência humana, na falta de uma definição mais apropriada, é moral. Ou talvez, a própria moral humana seja a causa mais evidente desta decadência. Pois, para mim, a moralidade imperando sobre o gênero humano, não passa de um grande culto à negação. A moral humana é essencialmente negativa.
E o que esta moral vem a negar? Muito simples, devo dizer. A moral é uma grande negação da própria vida, é uma negação do que existe de natural no ser humano, é uma negação do próprio ser humano. A moral é uma ruptura com a natureza, como se a humanidade não fosse mais integrada, mas sim a única e legítima proprietária da Terra.
Por que isso aconteceu? Evolução. O ser humano é a resultante de fatores evolucionais: seu poder de raciocínio, mais precisamente seu poder de abstração, sua capacidade de manipulação, possibilitando a criação de ferramentas e utensílio para suprir suas necessidades não supridas por suas habilidades e atributos físicos, e por último, porém mais crucial fator, sua fragilidade e impotência diante da natureza. Esses três fatores acabaram possibilitando ao ser humano a chance de alcançar a posição de espécime mais bem adaptado ao meio, na verdade, mais que isso, a possibilidade de adaptar o meio-ambiente de acordo com suas necessidades e desejos.

terça-feira, maio 16, 2006

Retorno e Recomeço

Bem, um mês se passou. Um mês longe da rotina, um mês de esquecimento. Mas é da natureza de todas as coisas acabarem. O mês se acabou. As férias se findaram. Estou de volta a minha rotina, a minha “vida”, caso eu possa chamá-la assim.

Muito tempo tive para pensar, para refletir sobre minha situação durante esse tempo. E acreditem, isso não foi bom. Nem sempre é agradável ficar olhando para dentro e no meu caso quase nunca é.

O mais marcante com a sensação de não controlar a minha própria vida. É como viver uma vida que não é minha, é como viver uma farsa, uma comédia (ou talvez tragédia). Não tenho forças o bastante ou vontade suficiente para tomar as rédias da minha vida em minhas mãos.

Mas quem de nós não é um escravo? Um servo? Mudam apenas os senhores, mas a servidão não. Somos criados inseridos em uma cultura, onde nos são agrados valores alheio a nós. Somos adestrados. Assim como um cachorro faz truques, nós fazemos certas coisas e agimos de dadas maneiras sem saber ao certo o porque. Nós estudamos para aprender, aprendemos para trabalhar, trabalhamos para viver e acabamos vivemos de uma determinada maneira muita vezes sem uma vontade sincera e verdadeira de fazê-lo. Incluídos como estamos em uma sociedade, devemos, nas palavras de Raul, “contribuir para o nosso belo quadro social”. Devemos ser cidadãos respeitáveis e trabalhadores. Mas não respeitamos a nós mesmos, não trabalhamos para e por nós mesmo. Quantas pessoas são realmente felizes com o modo como levam suas vidas? Ou seja, somos escravos, mais sofisticados talvez, completamente iludidos com certeza, mas ainda sim escravos. Mesmo se alguns, ou a maioria, nunca perceber isso, não muda o fato: somos prisioneiros de nossa cultura e nossa sociedade.

Cada vez mais desejo escapar desse meu cativeiro auto-imposto. Pois sim, nós decidimos pelo cárcere. Fazemos isso quando não assumimos a responsabilidade por nossos atos, quando somos levianos em nossas escolhas, quando somos levianos com nós mesmos.

Mas já chega por hoje. Preferia uma postagem inicial mais leve, mas ainda preciso me recuperar.

Novamente citando Raul, “seria mais feliz se fosse mais burro”.