sexta-feira, junho 23, 2006

Menos-Valia

Prisioneiros sem nome, números apenas,
Enjeitado nas engrenagens do futurismo,
Encarcerados no desumano mecanismo,
Sendo devorados vivos pelos sistemas,
Sejam algorítmicos, binários e lógicos,
Sejam financeiros e mercadológicos.


Matheus Filipe

sábado, junho 17, 2006

(Também) Sobre a Moto-Perpétua-Poesia

Admito: quando a idéia, como toda epifania criativa, me veio repentinamente alguns bons meses atrás, de fato achei ser algo muito bom. Mas foi algo sutil e sorrateiro, por isso mesmo a idéia se fixou mas não se proliferou em mim, esquecida ela se encontrava, nos recônditos de minha mente. Mas sim, ela estava lá, aguardando e espreitando, esperando eu baixar a guarda para se libertar de mim. Pois sim, a idéia se iniciou em mim, mas não, ela nunca me pertenceu de fato.

A primeira estrofe simplesmente brotou, repentinamente, durante uma conversa sobre a idéia em si, com meu primo. Foi assim: ela decidiu o momento propício para o seu nascimento, aproveitou a melhor chance para se libertar de mim e se fazer poesia. A idéia foi uma semente plantada, germinando e hibernando por um longo tempo, para finalmente florescer em poesia.

Não se enganem: a poesia não nos pertence, ao contrário, nós quem pertencemos a ela. Somos imolados através do nosso sentir, de nosso poetar, para a poesia poder existir. Ela depende de nós para nascer, sem nós ela não existiria. Mas nem por isso ela se curva diante de nossa vontade. Poesia não é servil, poesia é selvagem. A poesia vive em nós, ela habita nossas almas, mas de modo algum ela faz parte de nós, somos apenas seu meio e sua razão de existir.

A maior prova de amor é saber deixar ir, deixar livre. Com a poesia não deve ser diferente, pois ela apenas será poesia se for livre para sê-la. Caso contrário, será apenas rima e métrica, ou nem isso. Assim como um deus precisa de fiéis para perdurar, a poesia necessita de vida para viver. E não há vida sem liberdade. E a poesia vive no mundo das emoções, fluindo através de nosso sentir e nosso viver. A poesia vive em nós, mas ela também vive por ela mesma. Então, cabe a nós deixá-la livre para viver essa poesia de ser ela mesma poesia.

Sendo assim, como poderia manter a idéia encerada em mim? Como poderia privar a poesia de vivificar e florescer? Ela nunca me pertenceu, mas por algum motivo me escolheu e confiou em meu sentir. Nada fiz além de retribuir todo prazer e toda dor por ela causados. A poesia me faz sentir vivo como poucas outras entidades e eventos tem o poder. É como quando a chuva suave toca pela, como quando a brisa na montanha sussurra por entre as árvores, como quando a lua cheia se torna dourada e depois prateada, como quando o céu se torna de baunilha ao entardecer. Tudo isso é a poesia do mundo, é a nossa poesia, é, simplesmente, a poesia.

Eu tenho de tentar retribuir esse dom da vida. Preciso retribuir a vida que me é ofertada pela poesia dando vida à poesia. Ou melhor, deixando a poesia fluir, deixando a poesia viver de poesia, deixando a poesia seguir seus próprios desígnios. Devo permitir que a poesia flua através do meu sentir, mas não devo prendê-la em mim. Ao contrário, devo espalhá-la ao quatro ventos do mundo, para dar a oportunidade para a poesia poder germinar em outros sentires e outros seres. A poesia deve se propagar, a poesia deve viver.

Deixemos a poesia viver e fluir. Vivamos e dancemos com a poesia.

É por isto estou aqui: por uma poesia viva.

Moto-Perpétua-Poesia (por uma poesia viva)

No início, o Verbo se fez Verso,
Que se fez emoção em movimento,
Que se fez canção e sentimento,
Ecoando por todo o Universo.

E de palavra verbo
versando o tempo
criou-se o todo
da poesia de um momento

Seja na melodia dos quasares,
Contraponto e contratempo,
Dançando na orla do tempo,
Além de quaisquer pesares.

Simples leve insistente
batendo rítmica com os peitos
rimando vozes e lamentos
ganhando asas voando sempre

A roda girou,
O tempo passou,
E então, a poesia,
algo novo se tornou.

sexta-feira, junho 16, 2006

Moto-Perpétua-Poesia (por uma poesia viva)

No início, o Verbo se fez Verso,
Que se fez emoção em movimento,
Que se fez canção e sentimento,
Ecoando por todo o Universo.

E de palavra verbo
versando o tempo
criou-se o todo
da poesia de um momento

Seja na melodia dos quasares,
Contraponto e contratempo,
Dançando na orla do tempo,
Além de quaisquer pesares.

Moto-Perpétua-Poesia (por uma poesia viva)

No ínicio, o Verbo se fez Verso,
Que se fez emoção em movimento,
Que se fez canção e sentimento,
Ecoando por todo o Universo.

terça-feira, junho 13, 2006

Normalidade Abstrata

Chega a soar ilógico: por que, muitas vezes, devemos mentir e omitir nossos sentimentos e desejo em nome de uma suposta normalidade? Normalidade seria então apenas um freio civilizatório? Seria apenas um dado estatístico, onde o comportamento da maioria defino o que é normalidade? Mas como um comportamento, não raramente feito de embuste e fingimento, pode servir de base para qualquer coisa, quanto mais para normas de conduta?

Perguntas difíceis...

Ser normal é se comportar da maneira esperada, ou seja, as pessoas se comportar da maneira como imaginam ser o modo esperado pelas outras pessoas. A normalidade nasce do hiato entre as pessoas, nasce da necessidade de aceitação das pessoas, juntamente com a fobia em relação à tudo que foge da normalidade aceita. As pessoas sempre temeram o desconhecido e o diferente, ainda mais quando se tornam ameaças ao status quo. Então, as pessoas acabam se sujeitando as mais variadas situações, tudo em nome da manutenção do status. Acabamos por nos tornar escravos dessa tal normalidade, desse tal modelo de conduta.

Quantas vezes fazemos coisa as quais não sentimos vontade de fazer? Quantas vezes nos sacrificamos, sacrificamos o que sentimos e o que desejamos?

Mas a questão que fica é a seguinte: até que ponto tudo isso vale a pena?

segunda-feira, junho 12, 2006

Anacrônico Parte X - Luto

Solidão, destroçando o pobre coração,
Num hino maldito, rachando e trincando,
As lágrimas de sangue nascendo e rolando,
Acalentando meus uivos de lamentação.

Por que é tão cáustica essa alegria no ar?
Rasgando meus olhos com essa leveza,
Com a doçura do oxigênio, da beleza,
Abrindo chagas profundas como o mar.

Coração, quase dilacerando o peito,
Convulso e delirante em seu leito,
Lembrando-se dos dias passados,

Dias negros de tristeza infernal,
Uma dor tremenda, mas no final,
Apenas mais um “dia dos namorados”...


Matheus Filipe

quinta-feira, junho 08, 2006

Catarse

Minha percepção do tempo. Mas isto mudou, não em relação a questão cronológica. No ano passado, no primeiro aniversário passado fora de casa e sozinho, percebi como a vida pode ser vazia. Percebi o quanto um abraço, uma demonstração de carinho, de afeto, mas sendo apenas por sociabilidade, faz falta. Não é apenas uma necessidade de chamar atenção, mas a sensação de vazio, de não ser importante. Obviamente recebi votos da minha família e uns poucos e queridos amigos. Mas não é a mesma coisa.

Desolação é a palavra. Você chega, depois de um dia de trabalho onde ninguém se lembrou e mesmo sabia sobre a data, olha para a casa vazia e percebe que não somente ele está vazia. Aniversário pode ser uma data bastante simbólica: represente a fim de um ciclo para um novo ciclo poder se iniciar. Morte e renovação. Mas quando nada há para se renovar? O que acontece quando a fênix não ressurge das cinzas? O que acontece quando a primavera não sucede o inverno? Quando inverno persiste em perdurar?

Queria apenas extirpar essa angústia cada vezes mais freqüente, esse aperto na garganta, esse tremor nas mãos, esses olhos marejados. Algumas vezes o desespero chega a arranhar a fina casca da superfície, ameaçando romper e destroçar a sanidade. Nessas horas chega a invejar pessoas com o dom de simplesmente acreditar que não controlam suas próprias vidas, que não são responsáveis, que existem forças maiores atuando. Seria tão fácil crer que tudo isso faz parte de um plano maior, que existe um motivo para isso tudo, um motivo além da minha omissão e leviandade para comigo mesmo.

Medo, tenho medo. Medo de me tornar uma pessoa amarga, árido, podre. Tudo que é vivo precisa respirar, precisa de ar para vivificar, caso contrário seca e morre. Existe algo vivo em mim, mas esse algo está lentamente sufocando, se afogando na falta de ar do vazio e esse algo está agonizando, lenta e dolorosamente. E quando morrer, restará apenas o gosto amarga de sua lembrança, corroendo e destruindo o paladar para a vida...

Anacrônico Parte IX - Anjo Caído

Um triste anjo de cabelo escuro,
Olha-me com seu olhar cálido,
Saltando de seu rosto pálido,
Com pureza e algo de obscuro.

Desce dos céus, tão gracioso,
Até o inferno, para me salvar,
Seus olhos castanhos a chorar,
Pois a descida é muito dolorosa.

Talvez o anjo não tenha decido,
Talvez por suas chagas e sua dor,
O belo anjo tenha mesmo caído

Derrubado das alturas pelo vento,
Mas em meus braços repousará
E terá paz por um momento.


Matheus Filipe

quarta-feira, junho 07, 2006

Das Tragédias Humanas

Sobre a Religião - Canto Dois

“As pessoas preferem crer no nada à nada crer”.

A religiosidade predominante, pelo menos no ocidente e alguma parte do oriente, independente da crença em particular, se caracteriza pela negação, pelo “culto ao nada”. A religião se torna basicamente um “dizer não a vida”, negando tudo o que é força, poder, energia. É a panacéia dos fracos, uma força de distorcer as coisas e tornar a fraqueza em uma forma de virtude, como por exemplo o “dê a outra face”, a própria essência da resignação e submissão religiosa.

Isso, aliado ao fato do ser humano em geral se achar a criatura mais importante de toda a criação, fornece a matéria para a criação do conceito moderno de “deus”. Nós sentimos uma necessidade quase física de nos sentirmos especiais, de achar que nossas vidas tem um propósito, um sentido maior. Existirá melhor forma se exaltar do que ser a imagem e semelhança do “criado do Universo”? Quando na verdade deus foi criado a imagem e semelhança do homem e não o contrário. Deus é apenas uma forma de dar significado e valor as coisas, tornar a vida, por que não, vivível.

terça-feira, junho 06, 2006

Das Tragédias Humanas

Nota: minha posição pode soar ofensiva, mas garanto não ser esta a minha intenção. Mas estamos em um país livre (por enquanto), portanto tenho o direito de dar minha opinião e as pessoas têm o direito de não ler, o direito de discordar, enfim, simples assim.

Sobre a Religião - Canto Um

Como passamos do religar ao negar em três passos simples.

Por algum tempo evitei tocar nesse assunto, por ser um tema delicado. Mas ontem recebi um sinal dos céus (e não, não era um objeto voador não-identificado): se outras pessoas falam tão abertamente sobre isso, sem qualquer pudor ou bom-senso, posso também falar sobre minha posição quanto ao tema. No caso, o tema é “religião”.

Uma perspectiva invertida, isso define bem minha visão sobre religiosidade e de como ele se modificou através dos tempos.

Antigamente, nas religiões animistas e naturais, o ser humano ainda se via como parte de um todo maior do que ele próprio, era uma tentativa de se integrar novamente a natureza. Daí surge uma das possíveis origens etimológicas da palavra: religare, do latim “religar”. As pessoas desejavam estar unas com as forças naturais. As pessoas não se viam como o centro das atenções no palco universal, mas apenas mais coadjuvantes no espetáculo da Vida. Eles estavam ali em função do mundo e não o mundo em função deles, como um grande parque de diversões. Não existia, ainda, uma relação antagônica entre homem e natureza.

Mas por algum motivo, a perspectiva mudou, mudança motivada talvez por um “egocentrismo coletivo”. O homem passou a ver o mundo a sua imagem e semelhança. O mundo havia sido criado para ele desfrutar. O homem passou a ser senhor de toda a criação, mestre de todas as outras criaturas e dono do mundo. O mundo se desdobrava a partir do homem. Religião passou a ser uma troca de favores metafísicos: o homem queria chuva, então fazia uma celebração; queria uma boa colheita, fazia um sacrifício. Sim, algo como um “mercantilismo sobrenatural”. Os deuses passaram a fazer o papel de mediadores e servos dos homens. Para chegar à negação da vida desse ponto não foi muito complicado.

Quando a negação da vida começou? Não ouso afirmar, mas provavelmente está relacionada a origem da prática escravocrata. Somente do ressentimento e da servidão poderiam surgir algo do tipo. O homem olha para a sua vida, uma vida de sofrimentos e provações apenas. “Por que não negar essa vida? Por que não me vingar contra ela?”, e de outras perguntas assim surge a semente a fuga metafísica chamada de “outro mundo”. O homem passa a renegar a vida em função de uma possível vida melhor após a morte. O fraco se vinga do forte após a morte, indo para o “céu”, enquanto o segundo vai para o “inferno”.

Esse breve relato reflete, de maneira muito grosseira e superficial, a minha opinião sobre a “evolução” da religião na história da humanidade. No próximo texto, abordarei a experiência religiosa individual e os motivos pelos quais as pessoas estão religiosas em um dado momento.