sábado, junho 17, 2006

(Também) Sobre a Moto-Perpétua-Poesia

Admito: quando a idéia, como toda epifania criativa, me veio repentinamente alguns bons meses atrás, de fato achei ser algo muito bom. Mas foi algo sutil e sorrateiro, por isso mesmo a idéia se fixou mas não se proliferou em mim, esquecida ela se encontrava, nos recônditos de minha mente. Mas sim, ela estava lá, aguardando e espreitando, esperando eu baixar a guarda para se libertar de mim. Pois sim, a idéia se iniciou em mim, mas não, ela nunca me pertenceu de fato.

A primeira estrofe simplesmente brotou, repentinamente, durante uma conversa sobre a idéia em si, com meu primo. Foi assim: ela decidiu o momento propício para o seu nascimento, aproveitou a melhor chance para se libertar de mim e se fazer poesia. A idéia foi uma semente plantada, germinando e hibernando por um longo tempo, para finalmente florescer em poesia.

Não se enganem: a poesia não nos pertence, ao contrário, nós quem pertencemos a ela. Somos imolados através do nosso sentir, de nosso poetar, para a poesia poder existir. Ela depende de nós para nascer, sem nós ela não existiria. Mas nem por isso ela se curva diante de nossa vontade. Poesia não é servil, poesia é selvagem. A poesia vive em nós, ela habita nossas almas, mas de modo algum ela faz parte de nós, somos apenas seu meio e sua razão de existir.

A maior prova de amor é saber deixar ir, deixar livre. Com a poesia não deve ser diferente, pois ela apenas será poesia se for livre para sê-la. Caso contrário, será apenas rima e métrica, ou nem isso. Assim como um deus precisa de fiéis para perdurar, a poesia necessita de vida para viver. E não há vida sem liberdade. E a poesia vive no mundo das emoções, fluindo através de nosso sentir e nosso viver. A poesia vive em nós, mas ela também vive por ela mesma. Então, cabe a nós deixá-la livre para viver essa poesia de ser ela mesma poesia.

Sendo assim, como poderia manter a idéia encerada em mim? Como poderia privar a poesia de vivificar e florescer? Ela nunca me pertenceu, mas por algum motivo me escolheu e confiou em meu sentir. Nada fiz além de retribuir todo prazer e toda dor por ela causados. A poesia me faz sentir vivo como poucas outras entidades e eventos tem o poder. É como quando a chuva suave toca pela, como quando a brisa na montanha sussurra por entre as árvores, como quando a lua cheia se torna dourada e depois prateada, como quando o céu se torna de baunilha ao entardecer. Tudo isso é a poesia do mundo, é a nossa poesia, é, simplesmente, a poesia.

Eu tenho de tentar retribuir esse dom da vida. Preciso retribuir a vida que me é ofertada pela poesia dando vida à poesia. Ou melhor, deixando a poesia fluir, deixando a poesia viver de poesia, deixando a poesia seguir seus próprios desígnios. Devo permitir que a poesia flua através do meu sentir, mas não devo prendê-la em mim. Ao contrário, devo espalhá-la ao quatro ventos do mundo, para dar a oportunidade para a poesia poder germinar em outros sentires e outros seres. A poesia deve se propagar, a poesia deve viver.

Deixemos a poesia viver e fluir. Vivamos e dancemos com a poesia.

É por isto estou aqui: por uma poesia viva.

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