segunda-feira, agosto 28, 2006

Apenas mais uma Ode...

Hoje, minha sombria e silente pena mata sua sede no rubro líquido de minhas veias, bebendo da tépida fonte a borbulhar de meu pulso.
Cintilantes gotas caem da ponta da pena como pequenas lágrimas, para mergulharem sediciosas na alva tranqüilidade da folha de papel.
A ponta negra de minha pena, embebida no vermelho de meu sangue, mancha a pureza branca do papel, como mácula, como chaga.
O branco absorve o vermelho riscado pelo negro, formam-se palavras doce, doces como apenas os venenos sabem e podem ser.
A dor flui em cada gota a tocar o papel, uma dor intensa, vívida, por que não, encarnada em vermelho-sangue, a dor guiada pelo negro-cortante. Sim, pois a pena, mesmo quando não corta, também é lâmina e a lâmina, mesmo quando não escreve, ainda é pena.
Os torpes sentidos cambaleiam diante da dor, tropeçam em alucinações, miragens, delírios.
Mas eu abraço a dor com todas as minhas forças...
Sim, eu diga a ela, dor, crave tuas presas agudas em minha carne lívida, rasgue minha pela como tuas garras profanas. Sejas uma fera ensandecida um animal selvagem, intenso e pulsante, lancinante e pujante, urre seu canto brutal, uive seu brado de loucura. Faça o que fizeres, ainda direi sim a ti, sempre, pois és tu, mas amanhã, outra diva lançara seu flagelo sobre mim...

sábado, agosto 26, 2006

Mais um dia no capitalismo

Eu chego, alguém me diz - pula! - então pulo o resto do dia.
No dia seguinte, me dizem - finge de morto! - e passo o dia fingindo de morto.
Depois, dizem - pega! - e durante o dia fico perseguindo coisas aleatórias.
Porém, no próximo dia, não dizem nada. Então continuo correndo atrás de diversas coisas. Mas, dado um certo tempo, dizem em tom de reprovação - por que não está pulando!?! - ao que responde que não fui instruído - Mas você precisa ter mais iniciativa, blá, blá, blá, etc e tal - então começo a pular, contrariado, mas saltitante e sorridente, como uma vaquinha hindu...

domingo, agosto 20, 2006

Amor, uma fraqueza?

Vou além do Sr. Elijah Snow: o mundo é um lugar muito, mas muito estranho mesmo... As pessoas têm medo de amar, têm medo de se entregar ao amor. É como se o amor fosse uma fraqueza, quando na verdade a fraqueza são as próprias pessoas. Amar é força, é ímpeto, é vontade de poder, é vontade de ser amor. Por isso mesmo é preciso ser forte, é preciso coragem para suportar os desígnios do amor, é preciso se entregar sem medo e sem receio...

Mas o que acontece? As pessoas racham e quebram quando são tocados pela chama do amor. As pessoas preferem abdicar do amor para evitar a possibilidade de sofrer caso as coisas dêem errado, preferem alimentar a ilusão de seu suposto controle sobre as próprias vidas. Mas elas sofrem quando se omitem no amor, então, onde está a autopreservação? Elas preferem sofrer agora para não sofrer depois? Castração, é a única palavra a surgir em minha mente...

Tanta omissão, tanta leviandade com seus próprios sentimentos e os sentimentos dos que não têm medo de sentir e se envolver. Mas felizmente, aqueles que se entregam estão sempre dispostos a correr o risco, pois é fato, a vida é um risco a ser corrido. A vida não espere que estejamos prontos ou que tenhamos certeza para que ela possa acontecer... Ela simplesmente acontece...

Amor... Tenhamos a coragem para amar da maneira mais desmedida e insensata possível...

Algumas palavras aos pragmáticos

Estou participando de um concurso literário cujo tempo é a paz. De fato me é um tema pouco caro, é tema incapaz de fazer pulsar aquele lirismo venal da poesia, ou pelo menos da poesia como a desejo: intensa e poderosa. Voltando ao concurso: fiz um soneto sobre o tema (em outra oportunidade ele será publicado nestas paragens), mas atualmente questiono as minhas possibilidades de classificação...

“Parabéns pelo senso crítico e pragmatismo!” (sic).
Pragmatismo. Pragmatismo. Três vezes pragmatismo. Mas o que diabos isto está fazendo aqui? Definição do Dicionário Aurélio: [substantivo masculino. Filosofia] Doutrina segundo qual as idéias são instrumentos de ação que só valem se produzirem efeitos práticos. Se entendermos “práticos” como sendo “úteis”, pronto, pragmatismo é nada além de um refinamento(?) do utilitarismo. Utilitarismo...

Utilidade, para mim, é apenas uma forma de servidão, e pior, uma forma de servir a fraqueza. Sendo úteis nos tornamos apenas animais de rebanho, prontos para ser sacrificados pelo “bem comum” (ou “fraqueza incomum”). Por que fraqueza? Porque a utilidade só existe quando algo fraco necessita dela. A força não necessita ser útil. Um furacão é útil? A fortaleza é confronto. A fraqueza é subterfúgio. Então, pergunto: qual a utilidade em ser útil?

A poesia para mim é força, é ímpeto, é desejo. Uma poesia pragmático seria uma negação em si mesma da poesia, seria anti-poesia, seria antípoda... Pelos deuses, onde fui me meter...

quarta-feira, agosto 09, 2006

Uma Ode

Tal qual a chuva de verão...
Chegando sempre em presságio,
Sempre quando é menos esperada...
Assim você chega, como brisa suave,
Como prematuro frescor da primavera...

Tal qual a lua cheia no céu...
Iluminando e prateando a noite,
A tornado mais sedutora e misteriosa...
Surge assim você, esplendor e magia,
Como face radiante de antigas deidades...

Tal qual uma força da natureza...
Quase tão perigosa quanto sublime,
Destruir e restaurar a um só tempo...
Assim é você, vontade e desejo,
Intensa como uma fatalidade...

Você é, simplesmente...