domingo, outubro 22, 2006

Canção das Esferas

Rajadas de ventos cortantes,
Sibilando tristes despedidas,
Como antigas deidades caídas,
Emissárias de eras distantes.

Sombras de imagens partidas,
No lago de águas inconstantes,
Reflexos no eco de instantes,
Ondas e ciclos de muitas vidas.

Segue o tempo a sua trilha,
Da qual todo destino partilha,
Uma mesma sina, noite e dia,

Nos acordes sem-fim do existir,
Movimentos cíclicos do devir,
Somente e apenas melodia.


Matheus Filipe

terça-feira, outubro 17, 2006

Um soneto para dizer nada

Clamo pela ardente paixão,
Feito uma Valquíria sedenta,
Onda que no recife rebenta,
Sentir em forma de explosão.

Tanto prazer que arrebenta,
Expande os limites da razão,
Afoga-se tudo em emoção,
Naufragando na tormenta.

Desejo viver, desejo sentir,
Nem que seja para destruir
O que em mim parece certo,

Imutável fato e acomodado,
Mas que seja tudo destroçado,
Para morte flertar aqui perto.


Matheus Filipe

sexta-feira, outubro 13, 2006

Cântico às Musas

Engraçado como as coisas acontecem: de uma hora para outra a inspiração simplesmente se vai, como a última brisa suave de outono anunciando a chegada do inverno. Um longo inverno, devo ressaltar, um “longo e tenebroso inverno”.
De nada adianta clamar por clemência diante das titânicas e tirânicas musas: elas nos olham de algum lugar longínquo do Híperon, onde nossos brados do mais puro desespero chegam como apenas leves ruídos de fundo, praticamente imperceptíveis, como o som de insetos impertinentes.
E quando, por um grande acaso, respondem nossas súplicas, suas respostas são pouco melhor que o completo silêncio...

Por que me abandonam, insensíveis e silentes Divas?
“Estamos bem aqui, onde sempre estivemos e onde sempre estaremos... Entre sonhos e desejos...”
E por que não mais falam comigo?
“Falamos, mas seus ouvidos estão fechados para nossa melodia entoada Acima do Céu, seus olhos estão cerrados para nossa imagem refletida de Apolo em Ártemis, sua pele permanece indolente ao nosso toque de brisa dos Elíseos...”
E por que não mais capaz disso?
“Por que jaz incapaz de perceber seu próprio coração, lacrado em seu peito, acorrentado e aprisionado... Não consegue ouvir nossa voz falando através de sua própria angústia...”
E que deve fazer para me libertar?
“Deixe a vida fluir... Deixe de pensar tanto em como e comece novamente a sentir simplesmente... Pois estamos onde sempre estaremos...”

Engraçado como para instâncias superiores tudo é sempre “simplesmente”. Talvez isso aconteça porque para elas tudo é realmente simples, pois elas são unas, não existe diferença entre o despertar e o sonhar... Quanto a mim, devo seguir apesar de minhas infinitas limitações, esperando receber outra vez o favor das Musas... Que assim seja...