Houve um Rei, governante de um Castelo, como tantos outros reis. O Rei levava uma vida simples e tranqüila, como seus afazeres de realeza, dentro da segurança, para ele impenetrável, de sua fortaleza rochosa. Tudo decorria da melhor maneira possível dentro dos muros do Castelo, pelo menos assim o Rei pensava. E nada poderia perturbar a situação confortável. Mas a História mostra e o Tempo comprova: as coisas sempre mudam.
Entropia. Toda estrutura encerra em si mesma a semente de sua própria ruína.
Quando começou a entender seu papel, enquanto ainda príncipe, o Rei já sonhava fazer parte do Império. Desde que se tornara soberano do Castelo, ele trabalhou arduamente para tornar seu desejo realidade. Na sua trilha, o Rei acabou tomando difíceis decisões, forjou alianças, algumas delas questionáveis, entrou em batalhas, derramou o sangue de seus próprios súditos. Ele fez todo o necessário para alcançar seu objetivo, sacrificando o que fosse necessário.
Então o grande dia chegou, o dia de se encontrar face a face com o todo poderoso Imperador. Rapidamente o Rei percebeu a fragilidade de seu sonho diante dureza da realidade nua e crua se revelando diante de seus olhos. A sede do Império era um grande antro de corrupção, o Imperador, aquela figura nobre e digna sempre a guiá-lo, não existia, era apenas uma velha marionete do Estado. Era tudo um grande jogo de poder e dinheiro, onde as pessoas comuns eram apenas peças dispensáveis no tabuleiro. O Rei o descobriu ser o seu sonho nada além disso, um sonho, um sonho infantil. O peso da responsabilidade caiu sobre seus ombros com o peso do firmamento. Todos os sacrifícios, todo o sangue derramado, tudo foi realizado visando um bem-comum, visando o futuro glorioso do seu Reinado e para seus súditos. Mas tudo foi em vão. Agora restava apenas a realidade fria e cinzenta a sua frente.
O Rei estava desolado, dormindo mal, alimentando-se muito pouco. O desespero o estava corroendo ao poucos. Toda sua vida foi uma grande farsa, uma mentira. Ele ficou totalmente desorientado, a fonte de suas forças lhe havia sido tomada, seu sonho simplesmente tornou-se pó e cinzas. Quando a angústia ameaça romper seu peito, o Rei decidiu procurar os Oráculos dos Senhores, dos Deuses. Ele questionou todos aqueles acontecimento, indagou o porque de os Deuses terem deixado ele percorrer aquela trilha para o nada. Um dos Oráculos disse ser inútil, apenas palavras não poderiam dissuadi-lo de seus sonhos, sua fé não poderia ser abalada com argumentos, apenas a própria realidade poderia causar alguma mudança. Terminou dizendo ser cada homem responsável por seu próprio destino. O Rei amaldiçoou a existência dos Senhores, por deixar tudo aquilo acontecer.
O povo começava a dar mostras de preocupação, afinal o Castelo estava começando a apresentar problemas, devido à ausência do Rei. Todos sabiam sobre a visita ao Império, todos davam como certo a integração, mas o tempo passou e nada aconteceu. O povo começou a questionar as autoridades. Mas para o Rei nada mais importava, nem mesmo o bem-estar do seu povo. Ele desejava apenas se libertar. O povo estava a beira de uma revolta. Então o Rei decidiu por um fim aquilo. Ele ateou fogo no Templos dos Deuses e no Palácio, matando os Oráculos e a Família Real. Em frente as chamas de seus antigos ideais, o Rei falou ao povo chocado que assistia ao espetáculo insano. A maldição dos Senhores, ele falou em tom sombrio, caiu sobre esta terra e este solo, apenas dor e sangue nascerão daqui de agora em diante, vão e esqueçam deste lugar condenado.
Dizendo isso ele adentrou as chamas do Palácio, em direção a morte. O povo achou ter sido o Rei tomando por algum demônio. O povo fugiu, para nunca mais retornar. Contudo, o Rei não morreu, ele assistiu sua vida tornar apenas escombros e ruínas. Na manhã seguinte, deitado no pátio sobre a fuligem, olhando para o céu, lembrou-se das palavras do velho Imperador, quando os dois estiveram sozinho. O Imperador percebeu as dúvidas nascidas no coração do jovem Rei.
Todas nossas escolhas tem um preço, disse de modo sereno o Imperador,todas exigem sacrifícios, não podemos escapar a isso, nós decidimos nosso caminho, escolhemos qual trilha devemos percorrer, nem sempre é fácil, nem sempre é agradável, mas é assim como as coisas acontecem e não podemos mudar isso.
No fim não somos capazes de fugir de nós mesmos, pensou o Rei.