quinta-feira, maio 31, 2007

Profecia do Sangue

Avancem, arautos do horror,
Conjurem o hino de desolação,
Sejam a própria destruição,
Um réquiem de pura dor.

Notas sangrentas da canção,
Ardendo nas chamas do terror,
Cantem, qual fogo e calor,
Como do abismo o coração.

E, no acorde final, o carmesim
Tingirá os céus, fará sangrar
Todo o firmamento, enfim,

Quando a morte chegar,
E sorrir, na iminência do fim,
Apenas o sangue irá falar.

Matheus Filipe

terça-feira, maio 29, 2007

Anacrônico Parte XII - Vidas Mortas

As inteiras vidas sepultadas,
Perdidas nos reinos da morte,
Esse nebuloso destino e sorte,
Lar de memórias obliteradas.

Terrível foice de negro corte,
Carrasco das vidas decepadas,
Todas as existências ceifadas,
Morto tudo em nome da morte.

Presas ao nefando fatalismo,
Unindo as coisas sem lirismo,
Estão todas as vidas atreladas,

Ligadas por uma sina escura,
No fim arrastadas à sepultura,
Sempre pela morte calcinadas.

Matheus Filipe

domingo, maio 27, 2007

Transfiguração

Eis que surge ela, diretamente das estrelas, em seus trajes diáfanos, carmesins e escarlates. Seu olhar é puro mistério e vontade, como se pudesse me enxergar por dentro e do avesso. Em seu olhar me perco e me reencontro diversas vezes. Ela se aproxima silente e sutil como um vulto, como uma miragem. Ela tem as formas de uma musa incandescente.

Seu toque ardente é o próprio calor do fogo, queimando minha pela como ferro-em-brasa. Seus lábios guardam a voracidade de um furacão em fúria. Cada movimento dela é como uma explosão de energia, é como uma erupção de desejo. É como caminha a beira do abismo, ficar paralisado de horror diante do perigo e hipnotizado pela tentação da beleza e pala promessa do prazer.

Mas como veio, ela se vai. Como um sonho, como um delírio. Talvez apenas uma divindade alucinógena.

Anacrônico Parte XI - Cântico

Existe tanta beleza no mundo,
Perpetuando-se a cada segundo,
Sublime e com tanta intensidade,
Que o coração parece sucumbir
Diante dela, a ponto de explodir
Em face dessa grandiosidade.

Existe toda essa vida pulsando,
Em estado bruto, se apropriando
De tudo, esse poder incontrolável,
Essa vontade imensa, irresistível,
Essa força intensa, indescritível,
Todo esse desejo imensurável.

As muitas verdades da natureza,
Como a vida, a indecifrável beleza
Por trás de tudo, são misteriosas,
Além do racional entendimento,
Além do humano conhecimento
Estão estas realidades gloriosas.

Diante de toda essa vida e beleza
No mundo, é possível ter certeza,
Ter fé inabalável, crer, acreditar,
E deixar para trás receios, medos,
Ter a fortaleza pura dos rochedos
E a liberdade das águias a voar.

Devemos ouvir a doce melodia
Do mundo, esquecer a melancolia,
A desolação e qualquer tristeza,
Pois apenas mantendo a mente
Livre, vamos deleitar totalmente
O espetáculo em toda sua grandeza.

Precisamos, porém, saber sentir,
Sentir a vida e não apenas existir,
Deixar a beleza fluir, nos arrebatar
Completamente, sentir a vontade
Do mundo e sua impetuosidade,
Poder que tudo pode ultrapassar.

É impossível em uns poucos versos,
Vislumbrar a beleza dos universo,
Adivinhar toda a vontade, o poder
Existente na vida, apenas sensações
Temos, somente sonhos e visões
Sobre o grande milagre que é viver.

Expressão de uma vontade imensa,
Infinita, toda essa beleza intensa,
Todos esses mistérios, muito além
De nossa pequenez e nosso pensar,
E devemos essas forças aceitar,
No entregar a elas, dizer amém.

Matheus Filipe

quarta-feira, maio 23, 2007

Castelos de Areia

Houve um Rei, governante de um Castelo, como tantos outros reis. O Rei levava uma vida simples e tranqüila, como seus afazeres de realeza, dentro da segurança, para ele impenetrável, de sua fortaleza rochosa. Tudo decorria da melhor maneira possível dentro dos muros do Castelo, pelo menos assim o Rei pensava. E nada poderia perturbar a situação confortável. Mas a História mostra e o Tempo comprova: as coisas sempre mudam.

Entropia. Toda estrutura encerra em si mesma a semente de sua própria ruína.

Quando começou a entender seu papel, enquanto ainda príncipe, o Rei já sonhava fazer parte do Império. Desde que se tornara soberano do Castelo, ele trabalhou arduamente para tornar seu desejo realidade. Na sua trilha, o Rei acabou tomando difíceis decisões, forjou alianças, algumas delas questionáveis, entrou em batalhas, derramou o sangue de seus próprios súditos. Ele fez todo o necessário para alcançar seu objetivo, sacrificando o que fosse necessário.

Então o grande dia chegou, o dia de se encontrar face a face com o todo poderoso Imperador. Rapidamente o Rei percebeu a fragilidade de seu sonho diante dureza da realidade nua e crua se revelando diante de seus olhos. A sede do Império era um grande antro de corrupção, o Imperador, aquela figura nobre e digna sempre a guiá-lo, não existia, era apenas uma velha marionete do Estado. Era tudo um grande jogo de poder e dinheiro, onde as pessoas comuns eram apenas peças dispensáveis no tabuleiro. O Rei o descobriu ser o seu sonho nada além disso, um sonho, um sonho infantil. O peso da responsabilidade caiu sobre seus ombros com o peso do firmamento. Todos os sacrifícios, todo o sangue derramado, tudo foi realizado visando um bem-comum, visando o futuro glorioso do seu Reinado e para seus súditos. Mas tudo foi em vão. Agora restava apenas a realidade fria e cinzenta a sua frente.

O Rei estava desolado, dormindo mal, alimentando-se muito pouco. O desespero o estava corroendo ao poucos. Toda sua vida foi uma grande farsa, uma mentira. Ele ficou totalmente desorientado, a fonte de suas forças lhe havia sido tomada, seu sonho simplesmente tornou-se pó e cinzas. Quando a angústia ameaça romper seu peito, o Rei decidiu procurar os Oráculos dos Senhores, dos Deuses. Ele questionou todos aqueles acontecimento, indagou o porque de os Deuses terem deixado ele percorrer aquela trilha para o nada. Um dos Oráculos disse ser inútil, apenas palavras não poderiam dissuadi-lo de seus sonhos, sua fé não poderia ser abalada com argumentos, apenas a própria realidade poderia causar alguma mudança. Terminou dizendo ser cada homem responsável por seu próprio destino. O Rei amaldiçoou a existência dos Senhores, por deixar tudo aquilo acontecer.

O povo começava a dar mostras de preocupação, afinal o Castelo estava começando a apresentar problemas, devido à ausência do Rei. Todos sabiam sobre a visita ao Império, todos davam como certo a integração, mas o tempo passou e nada aconteceu. O povo começou a questionar as autoridades. Mas para o Rei nada mais importava, nem mesmo o bem-estar do seu povo. Ele desejava apenas se libertar. O povo estava a beira de uma revolta. Então o Rei decidiu por um fim aquilo. Ele ateou fogo no Templos dos Deuses e no Palácio, matando os Oráculos e a Família Real. Em frente as chamas de seus antigos ideais, o Rei falou ao povo chocado que assistia ao espetáculo insano. A maldição dos Senhores, ele falou em tom sombrio, caiu sobre esta terra e este solo, apenas dor e sangue nascerão daqui de agora em diante, vão e esqueçam deste lugar condenado.

Dizendo isso ele adentrou as chamas do Palácio, em direção a morte. O povo achou ter sido o Rei tomando por algum demônio. O povo fugiu, para nunca mais retornar. Contudo, o Rei não morreu, ele assistiu sua vida tornar apenas escombros e ruínas. Na manhã seguinte, deitado no pátio sobre a fuligem, olhando para o céu, lembrou-se das palavras do velho Imperador, quando os dois estiveram sozinho. O Imperador percebeu as dúvidas nascidas no coração do jovem Rei.

Todas nossas escolhas tem um preço, disse de modo sereno o Imperador,todas exigem sacrifícios, não podemos escapar a isso, nós decidimos nosso caminho, escolhemos qual trilha devemos percorrer, nem sempre é fácil, nem sempre é agradável, mas é assim como as coisas acontecem e não podemos mudar isso.

No fim não somos capazes de fugir de nós mesmos, pensou o Rei.

quarta-feira, maio 16, 2007

Fatos da Vida (ou "A humanidade perdida")

O mundo humano é um lugar horrível, extremamente horrível, gerado e propagado por pessoas ainda mais horríveis. Hoje, aconteceu algo bastante raro para mim: autopiedade. Hoje, senti pena de mim mesmo por fazer parte dessa raça, dessa bizarra raça humana.

É um movimento a qual talvez não possamos retroceder: estamos sendo aos poucos destituídos de nosso bem mais valioso enquanto seres humanos. Estamos abdicando de nossa humanidade. Não digo ser este um processo recente, Não. Mas digo ser a nossa época o mais esplêndido fruto deste processo de desumanização. Há muito tempo o Abismo está olhando para nós.

Isso vai soar bastante repetitivo, mas vamos lá. As pessoas perderam o valor enquanto pessoas. Não por acaso, algumas pessoas valorizam mais os animais. As pessoas valem pelo seu valor monetário e apenas isso. Essa é a verdade do mundo capitalista: apenas o capital represente e detém em si o verdadeiro valor. Só o capital tem valor. Pessoas são apenas carvão para alimentar as caldeiras e fornalhas do capitalismo.

Vou terminar com isso de uma vez. O meu problema, neste caso, é fazer parte dessa barbárie chamada capitalismo. Estou afundando neste charco e ainda me debato de vez em quando, ainda apresento alguma resistência, por isso mesmo talvez surja essas esporádicas angústias e conflitos internos. No fim talvez seja eu tão hipócrita quanto qualquer outra pessoa. Tão patético, tão estúpido, tão cheio de minha própria superioridade. Enfim, “Humano, demasiado humano”.

segunda-feira, maio 14, 2007

Lobo em pele de ovelha

Nasci diferente, em um mundo onde a maioria luta para ser igual. Um incomum destinado a viver entre o comum. Um lobo amaldiçoado a viver como ovelha em meio ao rebanho, não sendo nem lobo, nem ovelha.

Ovelhas. Sempre tão comuns, sempre tentando serem tão iguais. São incapazes de questionar suas existências miseráveis, apenas se resignam e aceitam seu destino, um destino imposto a elas. Elas nascem, pastam, crescem, são tosquiadas diversas vezes durante sua vida, apenas para fornecer sua lã aos seus Senhores (ou seriam Deuses?) e finalmente morrem, para assim entregar sua própria carne em sacrifício aos Senhores. Isso nunca me pareceu “vida”. As ovelhas vivem apenas em função da vontade e dos caprichos dos Senhores. Nada além de escravos sem vontade própria. Quando tive idade para entender, percebi algo muito errado naquela fatídica existência.

Sempre fui arredio e arrisco, nunca me curvei diante da vontade opressora dos Senhores. Logo percebi: possuía garras e presas, mas não sabia a função delas, não sabia como usá-las. Quando ia ter com outras ovelhas, sempre acabavam machucando uma delas, não com intenção. Mas era algo de todo mais profundo, mais profundo e natural. Talvez ferir ovelhas fizesse parte da minha natureza. Mas como seria isso possível? Eu próprio era uma ovelha. Ou talvez não. Essa sempre foi minha sina, sempre foi minha angústia: não saber o que sou. Fui aprisionado a uma existência alheia a minha natureza. Não poucas vezes rezei aos Senhores, para ser dado em sacrifício e terminar com toda esse sofrimento sem sentido.

Cada vez mais fui me fechando em mim mesmo, em busca de respostas, procurando a verdade, por mais dolorosa que pudesse ser. As ovelhas se afastaram de mim com o passar do tempo. Os Senhores me viraram as costas. Vaguei por muito tempo a margem do rebanho, sozinho e perdido. Estava a deriva no mundo, um mundo totalmente sem sentido para mim, um mundo onde tudo parecia estar errado, tudo estar ao contrário. Percorri um logo caminho, sem saber para onde ir ou o que fazer. Foi então, no algo de desespero, que ele me encontrou.

Podia ouvir o leve farfalhar das folhas entre as árvores. Podia ver seu vulto se movendo com ardil por entre a floresta. Seus olhos vermelhos me fitavam o tempo todo, como se pudessem perscrutar através de minha alma e para além dela. Lentamente Ele deixou seu esconderijo, imponente seguindo até onde eu o aguardava, sem saber o por que. Filhote perdido, ele disse em sua voz que mais era um sombrio sussurro, tu não devias ter vindo até aqui. Não entendo bem suas palavras. Filhote? O que Ele queria dizer afinal?

Tu és lobo, ele prosseguiu indiferente, tu nasceste para matar as ovelhas e enfrentar os Senhores. Mas há muito tempo tu te perdeste da matilha. Tu eras jovem e ainda inocente, apenas por isto caíste nas sortilégios das ovelhas. Elas envenenaram teus instintos, tiraram de ti o que em ti te tornava superior a elas. Elas transformaram a ti em uma aberração, uma criatura presa entre dois mundos, sem pertenceres a qualquer um deles. Tu não és lobo, tu não és ovelha.

Então eu uivei de dor, clamei meu lamento pelos quatro vento, para que minha dor pudesse causar pesadelos às ovelhas e perturbar os sono dos Senhores. Ele olhou para mim por um longo tempo, sem demonstrar qualquer compaixão por mim e então disse, Agora, te darei a única coisa que pode aliviar seu sofrimento. Ele cravou suas presas agudas em meu pescoço. Pela primeira vez em minha patética existência me senti vivo de verdade, quando o sangue jorrou de meu corpo. Não deixa de ser irônico, sentir a vida apenas poucos segundos antes de precipitar no abismo indecifrável da morte. Agradeço a Ele por ter me libertado desta existência incompleta e falha. Agora, nesse instante final antes do fim, posso dizer quem sou eu.

Homo homini lupus”.

Matheus Filipe

domingo, maio 13, 2007

Lamaçal (ou "vida em sociedade")

Engraçado, para não dizer estranho, como a vida rotineira carece de qualquer sentido prático. Pelo menos a minha vida.

Por que fazemos certas coisas? Por que fazemos qualquer coisa? Sério, quantas das coisas desempenhadas por nós durante nossa breve existência detém em si alguma motivação real? Tire a satisfação das necessidades básicas, o que sobra? Quanto daquilo realizado por nós é de fato algo verdadeiro para nós mesmo e quanto é apenas um reflexo distorcido de outrem? Bem-vindos a humanidade.

Creio ser grande parte dessa ausência de sentido causada pela própria sociedade onde nos inserimos, ou onde somos inseridos, melhor dizendo. Para a sociedade, o indivíduo não é importante, sua relevância vai até o ponto onde contribui para o bem-comum, este sim é o fator importante. O indivíduo é apenas uma engrenagem do sistema, o mecanismo preciso das engrenagens, mas de modo algum as engrenagens são a prioridade do sistema. Bem-comum.

Por que estudamos? Por que trabalhamos? Por que formamos famílias? Já parou para se perguntar para onde sua vida vai te levar? Ela precisa levar necessariamente a algum lugar, para início de conversa? Em geral, somos levados a perseguir objetivos alheios a nós mesmos. Tudo para quê? Para nos tornamos cidadãos respeitáveis e, como diria Raul, “contribuir para o nosso belo quadro social”. Mas é esse mesmo nosso desejo? Queremos nos tornar pessoas melhores, seres humanos melhores ou cidadãos melhores, melhores para a sociedade? Quantos de nós sabem o que querem? Tenho minhas dúvidas.

Estamos afundados até o pescoço, chafurdando na lama do capitalismo. Bem, esta é mais uma postagem para dizer nada. Pelo menos nada de novo.

domingo, maio 06, 2007

Retorno

Bem, cá estou de volta. As férias se foram, não digo terem sido rápidas, pois fiquei em tal modo letárgico, consegui abstrair o fato de estar de férias e simplesmente deixei o tempo seguir seu próprio ritmo. Contudo, agora estou me sintonizando novamente, re-alinhando o meu centro de gravidade. Colocar os acentos em vertical, apertar os cintos e preparar para aterrissar na rotina.

As férias, bem, as férias foram um pouco estranhas. A tristeza foi uma companheira freqüente neste período. As férias começaram mal, recebi um golpe para a qual não estava preparado, estava de guarda baixa e o ataque foi certeiro. Sabe quando dizem “ver a vida passar diante dos seus olhos”, pois então, aconteceu isso comigo, emocionalmente falando. Possivelmente quebrou algo em mim, ainda não sei ao certo a extensão do dano, mas estou levemente receoso.

Sim, minha capacidade para o rancor foi suprimida. Consegui deixar para trás muito a coisa, coisas há muito tempo comigo. Libertei-me de alguns grilhões. Mas as coisa no mínimos são sempre dúbias. Estou me sentindo mais leve, mas também mais vazio. O rancor foi extirpado, mas não sem levar algo consigo. Talvez tenha abdicado da esperança, a tenha sacrificado para me livrar do rancor. Resta saber se o preço não foi alto demais.

Sim, estou consideravelmente amargo. Mas sem o amargo, o doce perde o seu sabor.