segunda-feira, maio 14, 2007

Lobo em pele de ovelha

Nasci diferente, em um mundo onde a maioria luta para ser igual. Um incomum destinado a viver entre o comum. Um lobo amaldiçoado a viver como ovelha em meio ao rebanho, não sendo nem lobo, nem ovelha.

Ovelhas. Sempre tão comuns, sempre tentando serem tão iguais. São incapazes de questionar suas existências miseráveis, apenas se resignam e aceitam seu destino, um destino imposto a elas. Elas nascem, pastam, crescem, são tosquiadas diversas vezes durante sua vida, apenas para fornecer sua lã aos seus Senhores (ou seriam Deuses?) e finalmente morrem, para assim entregar sua própria carne em sacrifício aos Senhores. Isso nunca me pareceu “vida”. As ovelhas vivem apenas em função da vontade e dos caprichos dos Senhores. Nada além de escravos sem vontade própria. Quando tive idade para entender, percebi algo muito errado naquela fatídica existência.

Sempre fui arredio e arrisco, nunca me curvei diante da vontade opressora dos Senhores. Logo percebi: possuía garras e presas, mas não sabia a função delas, não sabia como usá-las. Quando ia ter com outras ovelhas, sempre acabavam machucando uma delas, não com intenção. Mas era algo de todo mais profundo, mais profundo e natural. Talvez ferir ovelhas fizesse parte da minha natureza. Mas como seria isso possível? Eu próprio era uma ovelha. Ou talvez não. Essa sempre foi minha sina, sempre foi minha angústia: não saber o que sou. Fui aprisionado a uma existência alheia a minha natureza. Não poucas vezes rezei aos Senhores, para ser dado em sacrifício e terminar com toda esse sofrimento sem sentido.

Cada vez mais fui me fechando em mim mesmo, em busca de respostas, procurando a verdade, por mais dolorosa que pudesse ser. As ovelhas se afastaram de mim com o passar do tempo. Os Senhores me viraram as costas. Vaguei por muito tempo a margem do rebanho, sozinho e perdido. Estava a deriva no mundo, um mundo totalmente sem sentido para mim, um mundo onde tudo parecia estar errado, tudo estar ao contrário. Percorri um logo caminho, sem saber para onde ir ou o que fazer. Foi então, no algo de desespero, que ele me encontrou.

Podia ouvir o leve farfalhar das folhas entre as árvores. Podia ver seu vulto se movendo com ardil por entre a floresta. Seus olhos vermelhos me fitavam o tempo todo, como se pudessem perscrutar através de minha alma e para além dela. Lentamente Ele deixou seu esconderijo, imponente seguindo até onde eu o aguardava, sem saber o por que. Filhote perdido, ele disse em sua voz que mais era um sombrio sussurro, tu não devias ter vindo até aqui. Não entendo bem suas palavras. Filhote? O que Ele queria dizer afinal?

Tu és lobo, ele prosseguiu indiferente, tu nasceste para matar as ovelhas e enfrentar os Senhores. Mas há muito tempo tu te perdeste da matilha. Tu eras jovem e ainda inocente, apenas por isto caíste nas sortilégios das ovelhas. Elas envenenaram teus instintos, tiraram de ti o que em ti te tornava superior a elas. Elas transformaram a ti em uma aberração, uma criatura presa entre dois mundos, sem pertenceres a qualquer um deles. Tu não és lobo, tu não és ovelha.

Então eu uivei de dor, clamei meu lamento pelos quatro vento, para que minha dor pudesse causar pesadelos às ovelhas e perturbar os sono dos Senhores. Ele olhou para mim por um longo tempo, sem demonstrar qualquer compaixão por mim e então disse, Agora, te darei a única coisa que pode aliviar seu sofrimento. Ele cravou suas presas agudas em meu pescoço. Pela primeira vez em minha patética existência me senti vivo de verdade, quando o sangue jorrou de meu corpo. Não deixa de ser irônico, sentir a vida apenas poucos segundos antes de precipitar no abismo indecifrável da morte. Agradeço a Ele por ter me libertado desta existência incompleta e falha. Agora, nesse instante final antes do fim, posso dizer quem sou eu.

Homo homini lupus”.

Matheus Filipe

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