O amor nasce de um número incontável de propícios acasos. A sincronia capaz de unir duas pessoas neste nosso mundo tão aparentemente caótico é algo praticamente incabível, simplesmente escapa a compreensão. Então, não tentemos compreender essa Ordem Implícita a nos cercar. Não, apesar do tom, minhas palavras nada tem de espiritualidade. Ou talvez tenham, quem pode saber?
Enfim...
A sincronia congruente de inúmeros acasos, também chamados “coincidências”, lança exatamente aquelas duas pessoas, naquele mesmo exato ponto do espaço-tempo. Qualquer segundo não acontecido da forma como aconteceu e talvez essas pessoas nunca viessem a se encontrar.
Contudo, elas se encontraram. Em seus íntimos, talvez já soubessem estar diante do amor, talvez não. Acontece o primeiro beijo, sem dúvida o melhor de todos os beijos, o mais desejado e também o mais inesperado. Aquele, aquele beijo é a coroação máxima de todos o eventos ocorridos para unir os lábios. Dali para frente, o acaso deixa de ser a forma predominante por trás das coisas. Dali em diante, são as próprias pessoas trilhando seus caminhos. Neste ponto, acaba o “e viveram feliz para sempre” e começa a vida real.
Sim, as pessoas querem ficar juntas, afinal, elas se amam, suponho. Mas as pessoas, amem o quanto amarem, no fim são apenas pessoas. Enquanto pessoas, em geral, somos falhos, fracos, mesquinhos e egoístas. A princípio, o amor supera esses pequenos detalhes de nossas personalidades, afinal, foi preciso um universo inteiro nascer para ele acontecer.
Contudo, cada vez mais o amor exige força e coragem dos amantes. Força para confiar no amor, coragem para se desprender de todo o resto. No amor, nossa mais terrível e cruel batalha será sempre contra nós mesmos. Não se engane, será sempre você mesmo a sabotar o seu relacionamento, de uma forma ou de outra. E fatalmente, chegará um ponto onde o amor se tornará um fardo insuportável. Haverá um tempo onde o amor cobrará um sacrifício alto demais. O amor não acaba, ele apenas se torna difícil para além de nossas capacidades limitadas.
Então, abrimos mão dele, simplesmente abrimos mão do amor em função de viver uma vida menos desgastante e mais divertida. Quem pode nos culpar por isso? Quem além de nós mesmos? Fizemos o melhor para nós mesmos, não? Egoístas? E quem não é?
Contudo, existe um outro ponto. Algumas vezes apenas um dos amantes alcança a massa-crítica do amor. O outro ainda pode suportar as provações do amor, ou assim acredita. Não está pronto, não está disposto a abrir mão do amor, a desistir do ser amado. Mas o amor acontece entre duas pessoas, não pode continuar aleijado. Vai doer sim, vai machucar e muito, mas nada pode ser feito, a outra pessoas tomou sua decisão, entre o amor e o seu bem-estar, fez a escolha lógica e prática. Toda a teia de acasos a uni-los, toda a história contada pelo dois juntos, memórias, esperanças, nada disso importa agora. Em algum momento houve um sonho, mas agora o sonho acabou.
Ao herdeiro do amor, resta apenas aceitar os fatos e seguir em frente. Com o tempo, possivelmente, o amor adormece e se acalma, não chegar a findar-se, mas pelo menos deixa de doer e machucar. Com um pouco de sorte, pode até amar novamente, pode até desejar novamente. Ou pelo menos assim se espera.
Mas como bem escreveu Clarice Lispector, ...“assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho... O de mais nada fazer".
Para sempre talvez seja tempo demais...