Conversando com o Greca esses dias atrás, comparado nossas posturas diferentes em relação ao sexo, chegamos a conclusão de ele ser mais voltado para o campo masoquista do prazer (para mais detalhes, pergunte diretamente a ele), enquanto eu apresento forte inclinação para o sadismo. Não por acaso "Les 120 Journées de Sodome", obra-prima escrita pelo Bom Marquês, se tornou um de meus livros favoritos, possivelmente figurando no meu Top Five literário. Bem, o livro é um redemoinho, tragando toda a moralidade e hipocrisia, lhe fazendo mergulhar nas profundezas daquilo que existe de mais bestial em nós, lugares onde o hediondo e o bizarro se tornam a forma mais pura e destilada de beleza e de prazer, tal qual um mortal veneno a inebriar e destruir toda a nossa frágil civilidade.
Segundo o senso comum, nós, enquanto seres humanos, devemos ser bons, devemos ser mansos e cordatos. Isso, na minha opinião, é, no mínimo, uma simplificação grosseira de nossas naturezas. Em nossa visão limitada, ou talvez castrada, vemos cada ser humano como coisa única, como figura monocromática, ou seja, você pode ser bom ou pode ser mau nesta dualidade maniqueísta. Caso seja bom, estará automaticamente excluído toda a possibilidade do mau, isso em tese. Não existiria gradação, não haveria balanço entre os pesos da balança, uma coisa necessariamente anularia a outra. Talvez isso seja a fonte de todo o nosso sofrimento existencial: buscar ser algo completo e limitado, quando somos um processo com um número sem-fim de possibilidades. Limitar-nos é a nossa morte, lenta e dolorosa, nos corroendo dia após dia, milímetro a milímetro.
Após o devaneio existencialista, de volta ao assunto. A dor em outro ser humano, quando causada por mim, como posso explicar sem parecer mentalmente perturbado? Que seja. A dor alheia provoca em mim uma sensação de libertação, exercer poder sobre outra pessoa sempre me é libertador. Contudo, você não pode perder de vista o fato de a dor e o prazer serem níveis diferentes de uma mesma força em nós. Nunca aconteceu de você gostar de uma dor, ou ficar com medo da intensidade do prazer? Não, bem, comigo acontece. Muitas vezes a dor é também libertadora em mim, não como forma de prazer, como o começo da postagem deixa claro. A dor é meu limite, por ela posso saber até onde vou, com ela sou atrelado a realidade. Dor é como um sinal vital, uma das formas de saber se alguém está vivo ou não. Estar vivo dói.
Pode me chamar de doente, se eu ligasse, não teria me dado ao trabalho de escrever esta postagem. Entretanto, não sou hipócrita em negar minha natureza, mesmo sendo ela muitas vezes violenta, selvagem e destrutiva. Não tenho medo de quem sou, a muito tempo já me entreguei ao abismo da existência humana.
Ainda prefiro ser uma anomalia a ser mais gado para o rebanho. Ser eu mesmo tem um preço, mas estou disposto a pagar. Toda escolha envolve sacrifícios.
E você, está disposto a pagar o seu preço?
Retórica?
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Vejam só, quanto tempo se passou desde que uma ideia foi depositada neste
pequeno recanto de pensamentos obscuros.
Aos poucos leitores, um com certeza - ...
Há 10 anos
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