terça-feira, setembro 13, 2011

A queda...

Um intervalo de tempo, dez dias, se passou. Talvez seja o tempo necessário, talvez não, independente, vou aqui falar sobre minha primeira experiência no mundo da queda livre.

A idéia básica é exatamente essa: entrar em um novo mundo. Nada, até onde sei, poderia me preparar para aquele quase um minuto em que estive, em um sentido bastante literal, entre o céu e a terra. Não sou capaz de encontrar qualquer paralelo para a sensação de ser jogado para fora de um avião em pleno vôo, a quase quatro mil metros de altura, caindo vertiginosamente a 200km/h em direção ao solo. E creia-me, o mais incrível nisso tudo é nítida impressão de não se estar caindo. Provavelmente essa "não-queda" seja o que tornou para mim a queda livre algo tão libertador. Sério, só de escrever essas palavras meu corpo todo para ansiar por aquilo novamente. Sinto a mesma ansiedade dos momentos antes do salto. Sinto a lembrança física da pressão sobre meu tórax durante a queda. Sinto falta da sensação. Pergunto-me se está falta é similar a abstinência sofrida pelos viciados químicos.

Porém, se fosse apenas isso. Acontece de o salto ter me afetado de uma maneira mais profunda. Minha forma de perceber e sentir o mundo ao meu redor já não a mesma. Eu mudei, logo, tudo mais mudou. Aqui embaixo, preso ao chão pela madrasta gravidade, tudo parece, sei lá, ter menos intensidade. É como caminhar em um sonho dentro de outro sonho, tudo parece distante e irreal, uma espécie de sombra da vida e não a vida em si. É bem por aí mesmo, sinto-me como se nunca tivesse realmente vivido antes da queda. Isso, posso dizer, "abriu minhas portas da percepção" para um nível além do mundano e comum. Entretanto, esta nova porta depois aberta, não pode ser fechada. A pessoa que entrou no avião, em partes, não existe mais. Eu emergi da queda livre uma outra pessoa. Algo em mim foi quebrado para dar lugar ao novo, para dar lugar a vida em toda a sua intensidade.

Como não poderia deixar de ser, pela primeira vez em muito tempo, eu sei o que quero pra mim: eu vou ser paraquedista. Essa certeza me assombra e provoca diariamente agora, e diante dela, tudo mais parece tão pequeno e sem importância. Talvez finalmente eu tenha me aproximado de fato da "habilidade de não prestar atenção a tudo que não seja importante".

Nietzsche, a quem considero o meu autor, ganhou um sentindo completamente novo quando fala nas "alturas" e no "abismo". Alcei vôo até as altitudes superiores e apenas de tal elevada estância pude pela primeira vez vislumbrar a precipício em toda a sua grandiosidade, enquanto era atirado para ele. E realmente, quando você olha para dentro do abismo, o abismo de volta olha dentro de você.

segunda-feira, maio 23, 2011

Fatalidade

Estou angustiado e esse é o motivo da minha volta a este lugar. Simplesmente preciso arrancar essa coisa pressionando meu peito, preciso liberar essa coisas a me sufocar.

Não entrei em detalhes, pois os detalhes não cabem e não se fazem necessários aqui.

Não existe coisa mais brutal que a morte. Não para quem morre, pois isso está muito além do meu alcance parco, mas para quem continua vivo é de uma brutalidade insana. Já parou para pensar no seguinte: cada um de nós, cada ser humano a morrer, é algo arrancado para sempre da continuidade das coisas, excepto pela saudade e pela memória, claro. Mas cada morte é uma luz a se apagar para todo o sempre. É tão inevitável. É o mais verdadeiro e terrível abismo, se abrindo diante de nossos incrédulos olhos, sobre nossos hesitantes pés, esmagando nossos inquietos corações. Seria difícil fugir aos clichês, mesmo se fosse esse meu intento.

Nada nos torna mais humanos, nada nos mostra a realidade com mais clareza do que a bênção silenciosa da morte.

Como a própria Morte disse muito bem, "você viveu o mesmo que qualquer outro: uma vida inteira".

P.S.: sinto-me um pouco mais leve após essas poucas palavras... O que será desse lugar daqui para frente? Quem pode saber?